Coisas evidentes por si ~ Porto Total, capital do dragão... summary_noimg = 550; summary_img = 450; img_thumb_height = 200; img_thumb_width = 200;

9 de outubro de 2013

Coisas evidentes por si

1- Esta semana um leitor portista escrevia-me perguntando como é possível que Paulo Fonseca não repare e não retire consequências das sucessivas exibições deprimentes de Silvestre Varela. E acrescentava se seria de crer que o treinador portista, já que não consegue ver isso em campo, ao menos não verá o vídeo dos jogos da equipa para, finalmente, ver o mesmo que todos os outros? É a pergunta que eu me venho aqui fazendo, pelo menos de há três anos para cá, em relação a Paulo Fonseca e Vítor Pereira.

E pergunto ainda porque não pede, ao menos, Paulo Fonseca que lhe façam uma estatística de tudo o que Varela fez e deixou de fazer nos últimos cinco, dez, vinte jogos, em que foi titular: quantas vezes foi decisivo a ajudar atrás, quantos cruzamentos de jeito fez, quantos passes de ruptura, assistências para golo, cantos bem cobrados, remates com perigo, etc.? Não conseguindo resposta lógica para uma situação tão incompreensível, cheguei a convencer-me que Varela beneficiava de altas protecções junto de Vítor Pereira. Mas o facto, é que Vítor Pereira foi-se, veio Paulo Fonseca e Varela lá continua titular, de pedra e cal, já nem sequer se dando ao trabalho de tentar disfarçar a ausência de qualquer justificação lógica para o estatuto de excepção de que goza.

Farto de me irritar com a situação, tomei, há cerca de ano e meio, uma decisão pessoal e radical: não voltaria ao Dragão enquanto Silvestre Varela fosse titular do FC Porto. Porque no estádio, ao vivo, as prestações dele ainda me deixam mais nervoso, por ver coisas que a televisão não mostra: o seu eterno andar vagaroso e desinteressado, fugindo de todas as zonas de luta e construção de jogo, como se lhe bastasse o facto de ter sido escolhido e ali estar para não ter de mostrar nada mais. Prometi, tenho cumprido e continuarei a cumprir: chegamos a um ponto na vida em que só nos devemos irritar com o que vale mesmo a pena.

O jogo com o Atlético de Madrid foi exemplar para alimentar as várias dúvidas e perplexidades que a gestão de Paulo Fonseca me vem inspirando. Primeiro que tudo, a capacidade que a equipa, apesar de tudo e apesar de jogar com dez desde o início (com Varela em campo), mostrou para encostar o Atlético de Madrid às cordas. Segundo, a incapacidade de traduzir esse domínio em flagrantes e suficientes oportunidades de golo para liquidar o jogo, muito por ausência de flanqueadores capazes de servirem Jackson Martinez e o centro do ataque em condições de decisão — em resultado de uma política seguida por Vítor Pereira e Paulo Fonseca de liquidarem, afastarem e desmotivarem paulatinamente um naipe de extremos de grande qualidade que, no passado próximo, até chegou a parecer excessivo. Hoje, o único extremo de raiz que Paulo Fonseca tem ao serviço é justamente Varela. É simplesmente notável que se tenha chegado aqui. Em terceiro lugar, o jogo mostrou também aquilo que é indisfarçável desde o começo da época: um défice físico alarmante da equipa, sem capacidade de jogar qualquer jogo inteiro a um nível suficiente de exigência. Depois, a insistência em Defour, um jogador que só sabe passar a bola para o lado e para trás, que está a milhas da qualidade de Herrera e que não acrescenta nada à equipa. Ainda e também a insistência num sistema de jogo que matou o tradicional 4x3x3 em que ficaram formatadas todas as equipas do FC Porto ao longo de mais de uma década, com resultados brilhantes e que, por conseguinte, só piora o que estava bem (o próprio Fernando joga muito melhor como único pivô defensivo do que a dividir o espaço com outrem).

Enfim, a falta de conhecimento histórico do FC Porto, ou a falta de coragem revelada por Paulo Fonseca, e aqui vou directo ao assunto: estamos cansados de ver o Helton oferecer golos ao adversário em todos os jogos mais importantes da Liga dos Campeões. O Helton é um grande guarda-redes em muitas coisas, mas continuam a faltar-lhe, ao fim de tantos anos e tantos guarda-redes de valor que ele afastou do clube, a começar pelo Vítor Baía, coisas essenciais num guarda-redes ao mais alto nível europeu: saber sair da baliza, dominar o jogo aéreo e ter estaleca mental para não se trair a si próprio nos grandes momentos em que a equipa tem de contar com a sua ajuda e não com os seus erros que custam milhões.

Isto foi o essencial do que me disse a amarga derrota com o Atlético. Mas há outras coisas, menores, que também não entendo: que os cantos sejam marcados ao contrário da melhor doutrina — os destros devem marcar os do lado esquerdo do ataque e os canhotos os do lado direito; que o Mangala não tenha um treinador que controle as suas fatais faltas em zona perigosa, por excesso de impetuosidade; que o Lucho (agora também mais preocupado com tatuagens e penteados à moicano, que quase sempre visam disfarçar menores prestações), tenha de se arrastar em campo para ser substituído, como se fazê-lo fosse crime de lesa-majestade; e, enfim, aquilo de que já me cansei de falar e hoje já todos concordam: que o Quintero no banco já não é uma teimosia aceitável do treinador, é um acto de gestão prejudicial ao clube.

2- Breves notas sobre a vitória em Arouca, depois de mais uma exibição que deixou muito a desejar:

— já vi pastagens de gado com melhores condições para jogar futebol do que aquele relvado;

— poucas vezes se assiste a uma arbitragem tão hostil contra uma equipa (o FC Porto), inventando do nada uma profusão de faltas inexistentes, pactuando com todas as fitas e agressões dos jogadores do Arouca;

— poucas vezes vi uma equipa tão caceteira como o Arouca, beneficiando da indulgência do árbitro e devidamente comandada por um jogador veterano, da escola Maxi Pereira, inclusive com o mesmo e sugestivo cabelo rapado, como os maus dos filmes de violência;

— não percebi como é que, perante este panorama, Pedro Emanuel conseguiu passar o jogo todo a reclamar com os árbitros. Será assim que ele pretende manter o Arouca na primeira divisão?

3- Durante toda a semana, os benfiquistas, a todos os níveis, não se cansaram de clamar contra o penalty que Pedro Proença assinalou a favor do FC Porto, no jogo contra o V. Guimarães. Chegaram mesmo ao ponto de desembarcar em Paris sem outro assunto na bagagem, talvez já temendo e pretendendo antecipadamente desviar as atenções da humilhação que sofreram às mãos do PSG. Do presidente ao roupeiro, passando por Rui Costa, não houve quem não quisesse meter a sua colherada. E até o recém-chegado José Eduardo Moniz foi à luta, fazendo uma surpreendente descoberta: com os 4 a 5 pontos que ele retiraria ao FC Porto, mais os 3 ou 4 que acrescentaria ao Benfica - tudo em função das arbitragens - o Benfica estaria agora na liderança do campeonato, com 3 ou 4 de avanço sobre o Porto.

O problema da opinião é que ela, não apenas é livre, como também é bilateral: eu, por exemplo, poderia dizer que sem os dois golos irregulares do Estoril, o FC Porto teria o pleno no campeonato; e que sem o golo em off-side do Atlético de Madrid a nossa posição na Champions seria bem mais confortável.

O mais engraçado ainda é que, no auge da paródia, os sportinguistas também acharam que deviam ir a jogo e, pasme-se, tiveram a lata de declarar, sem rir, que este ano, como sempre, o mais prejudicado tem sido o Sporting! Até houve oportunidade para o presidente sportinguista, num prolongamento colateral da guerra contra o Porto, declarar, cheio de elegância e inchado da petulância que lhe irá ser fatal um dia, que Rui Costa só conhecia o ciclista.

E estavam as coisas neste pé, nestas eloquentes frases históricas da Segunda Circular, quando o Sporting beneficia de um penalty inventado pelo árbitro contra o V. Setúbal, embora sem influência no resultado. Porém, no Estoril assistiu-se a qualquer coisa de notável: não apenas um penalty, (a favor do Benfica e num momento crucial do jogo) marcado a um jogador que, de costas para a bola, a sente raspar na mão (coisa que se vai tomando anedoticamente banal), mas desta vez com uma variante jamais vista — um jogador teria jogado voluntariamente a bola com a mão para cortar...um alívio de um colega de equipa!

Será que agora uns e outros vão ser capazes de se calarem durante uma semana e deixarem de falar do penalty do Porto contra o V. Guimarães? É evidente que não. De que falariam eles, então?

a bola