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8 de julho de 2014

Os deuses do estádio!

1- Já vou falar de futebol, que é aquilo que mais nos ocupa. Mas, antes de ir ao grande futebol do Mundial e ao futebolzinho nacional, de intrigas e lamurias, deixem-me falar do desporto que, por diversas vezes já, considerei o mais espectacular, o mais sério, o mais próximo do ideal de desporto: o ténis. O ténis é um duelo arrebatador, exclusivamente determinado pela classe, pelos recursos técnicos, pela combatividade e pela capacidade de superar-se emocionalmente. No ténis, não há jogadores com tatuagens nem penteados ridículos, a dizerem baboseiras de circunstância, tais como «há que levantar a cabeça»; não há treinadores histéricos aos gritos, nem reclamações com o árbitro nem teorias da conspiração; não há desrespeito pelo público ou pelo adversário, há sim uma tradição de verdadeiro fair play que obriga a agradecer ao primeiro e a cumprimentar o segundo, no final.

Se alguém um dia me quiser dar um presente inesquecível, dê-me, por favor, um bilhete para a final de Wimbledon — em minha opinião, o melhor espectáculo desportivo do mundo. No ano passado, tentei o que pude, mas não consegui um ingresso para a final de Wimbledon, no mítico All England Lawn Tennis Club. E assim, anteontem, mais uma vez, lá me sentei em frente à televisão, para presenciar uma final inesquecível, que durou quatro horas de jogo a altíssimo nível (à atenção da equipe técnica da nossa Seleção de futebol: sem cãibras, nem entorses, nem roturas!). Julgo que desde a épica final em que John McEnroe quebrou os cinco anos consecutivos de vitórias de Bjorn Borg, que não assistia a uma final de Wimbledon tão empolgante. Quem viu, nunca mais esquece, quem não viu, nem sabe o que perdeu, é como ter visto dançar a Margot Fonteyn e o Rudolf Nureyev no Lago dos Cisnes. Djokovic (que vi, ao vivo, dar os primeiros passos como profissional, no Open do Estoril), conseguiu a sua segunda vitória, impedindo que Federer aumentasse o seu recorde de oito vitórias em Wimbledon e que se tivesse tornado, aos 32 anos, o mais velho vencedor de sempre. Conseguiu-o essencialmente graças ao seu demolidor jogo de fundo de court e aos seus fabulosos passing shots (16 winners, no total!). Mas eu, claro, estava por Federer, que julgo ser o melhor, mais completo e mais elegante jogador que alguma vez vi. Em minha opinião, só perde para o meu ídolo McEnroe no fascínio que a rebeldia deste, o seu carácter e o seu ténis de eterno risco, sempre ao ataque, despertava em mim. Mas Roger Federer é, de facto, o jogador e o desportista perfeito. Muito melhor que Djokovic na rede e nas bolas mais técnicas, e muito melhor no serviço (22 ases durante a final!). Além disso, anteontem terá sido, muito possivelmente, a última hipótese de Federer, já na fase descendente da sua incomparável carreira, chegar à final de Wimbledon. Embora tenha prometido voltar para o ano ao torneio, ele próprio o deve ter sentido - como ficou patente na forma como desafiou todas as previsões quando, a perder por 2-1 em sets e 5-2 na quarta partida, acabou a vencê-la por 7-5, forcando a negra. Quem viu, não esquecerá nunca.

2- Torci em vão pela Colômbia contra o Brasil. Não, porque prefira a Colômbia ao Brasil, como país (longe, muito longe disso!), mas porque a selecção da Colômbia tem muito do que foi e ainda é o meu FC Porto. E porque não suporto Scolari e a sua eterna sorte, que ele faz passar por talento. Qualquer um estaria na iminência de ser campeão do mundo com esta selecção brasileira, sem ter de passar pelos sufocos que ela tem passado e sem ter de apresentar um futebol tão triste e tão calculista. Ver os jogadores de luxo do Brasil passarem os últimos 20 minutos do jogo contra a Colômbia a chutarem a bola para onde estavam virados e para o mais longe possível da sua área, foi um atestado de incompetência passado a Scolari. A Alemanha, hoje à noite, vai ser o verdadeiro teste de fogo do Brasil. E, sem Neymar, vai ver-se o que vale realmente esta Selecção. Já não é sem tempo.

3- Tenho-me perguntado várias vezes o que pensará Vítor Pereira ao ver James Rodríguez, um jogador que ele desprezou, ser unanimemente considerado o melhor do Mundial. É que nem vale a pena vir com a desculpa de que já passaram dois ou três anos e que o James de então não era igual ao de hoje: era sim, já o tinha mais do que provado para quem quer que soubesse ver futebol e no ano anterior, na fabulosa equipa de Vilas Boas (lembram-se: ataque com Hulk, Falcão e James, com Guarin e Moutinho atrás?). É por estas e outras que eu não enfio a carapuça que Jorge Jesus propôs aos médicos e advogados que falam de futebol sem nada perceber: eu passei um ano inteiro, desesperado, a escrever aqui que não entendia que Vítor Pereira preferisse Varela ou Cristian Rodríguez (e até, às vezes, Mariano González!) a James e o ignorante era eu? E o Atsu, que ele também deitou fora e que Mourinho foi buscar? E o Candeias, que o próprio Jorge Jesus acaba de aproveitar para o Benfica? Não, desculpem lá, eu nunca entendi, nem quero entender, os treinadores que, ou não sabem distinguir um jogador excepcional de um jogador banal, ou, sabendo-o, acham muito perigosos e inconvenientes tacticamente os grandes jogadores. É essa mentalidade pequenina que leva um Paulo Bento a deixar de fora do Mundial jogadores como o Bebé ou o Ricardo Quaresma. Quem tem medo dos grandes jogadores, que compre um cão!

4- Tenho muito respeito por Augusto Inácio e não esqueço o que o FC Porto lhe deve, como jogador e como treinador. E também percebo que, no novo Sporting, da transparência e de Bruno de Carvalho, convém adoptar obedientemente o discurso oficial. Mas, porque tenho respeito por ele, lastimo que Augusto Inácio não revele, já nem digo respeito pela verdade, mas, ao menos, pela inteligência alheia. Quando na Gala do Sporting, talvez empolgado pela presença dos seus dois presidentes (o do clube e o da Liga de Clubes), ele veio afirmar «esperamos que haja verdade desportiva, porque, no ano passado, nos momentos chave, houve sempre um dedinho a impedir nos de somar pontos e com os outros foi ao contrário», Inácio prestou-se a gozar connosco. Ora, por favor, deixe-me reavivar a sua memória desportiva. Dois desses momentos chave, foram, como é evidente, os dois jogos contra o FC Porto, onde se decidia o segundo lugar e o consequente acesso à Champions que, só por si, vale oito milhões de euros. E o que sucedeu nesses dois jogos? No primeiro, no Dragão, nada: o FC Porto ganhou 2-0 sem espinhas e nem a mais exaltada voz sportinguista se ouviu a reclamar o que quer que fosse. Em Alvalade, sucedeu isto: com 0-0, Jackson foi abalroado pelas costas por Cédric, quando, isoladíssimo, ia cabecear para a baliza deserta, a um metro de distância. Era penalty, expulsão e, muito provavelmente, o 0-1, mas Pedro Proença, por razões que talvez um dia explique, preferiu fingir que não tinha visto nada. E depois foi o golo da vitória do Sporting, por todos reconhecido como tendo nascido em off-side. Este momento-chave também entra nas contas de Inácio? E, quando fala do benefício dos outros, estará a pensar nos 8 a 10 (dez!) pontos que o FC Porto perdeu, devido a decisões erradas de arbitragem, nas deslocações a todos os estádios dos seus adversários mais próximos — Luz, Alvalade, Estoril e Choupana? Devo concluir que, para este ano, o Sporting e Augusto Inácio ainda querem mais? Claro que eu sei que sim, mas, caramba, que haja ao menos algum decoro: só passaram uns meses e ninguém esqueceu ainda!

18 de junho de 2014

Um fado Tropical

1- Pior começo era impossível: penalty aos 10 minutos, lesões aos 28 e aos 63, expulsão aos 30, 0-3 ao intervalo, sem que Patrício tenha feito uma só defesa. Queixas antes do jogo, com o horário (marcado há seis meses e igual para todos) , com os dez minutos de atraso na chegada do autocarro com a Selecção ao estádio e queixas com a arbitragem desde o inicio, vindas do banco para dentro do campo, conforme é táctica de há muito estabelecida entre nós. A arbitragem não nos correu bem, de facto, mas apenas o penalty não assinalado sobre Éder foi erro claro: nas outras decisões, João Pereira e Pepe puseram-se a jeito. Mas nada disso consegue esconder os dois golos já sofridos antes da expulsão de Pepe, a evidente superioridade do futebol dos alemães e a clara falta de mentalização dos jogadores, que os levasse a preocuparem-se menos com as decisões do árbitro e mais com precipitações inaceitáveis num Mundial

— como o penalty de João Pereira, as três ofertas de golo de Patrício, de que, felizmente, só uma foi aproveitada, a incapacidade (mais uma!) de Pepe se controlar, a displicência do corte de Bruno Alves que deu o 0 3, etc.

Ninguém me tira da cabeça que aquilo a que chamo a diarreia prévia de patriotismo e o excesso de vedetismo, com os jogadores transformados nos novos heróis do mar, o Paulo Bento posando para a publicidade em atitude de Infante D. Henrique contemplando o mar a ser desbravado, tudo isso conduz a um excesso de auto-convencimento que acaba fatalmente em desastre quando se encontra pela frente gente que está habituada a trabalhar no duro para chegar aos resultados.

Não, não nos basta ter «o melhor jogador do mundo», se ele é a única alternativa que conhecemos. Que se aproveite, ao menos, a lição deste jogo inaugural contra a Alemanha para um banho de humildade que possa evitar o pior dos cenários.

2- Já se sabia que este iria ser um Mundial disputado em condições bem difíceis, atendendo ao clima do Brasil e à distância a percorrer pelas equipas entre jogos. Mesmo não sendo actualmente Verão no Brasil, do Rio de Janeiro para cima o Inverno brasileiro tem temperaturas de Verão europeu e humidade de sauna a que não estamos habituados. Jogar à uma da tarde em Salvador ou às sete da tarde em Manaus (necessidades televisivas a tal obrigam) transformam-se no primeiro e mais sério problema que qualquer selecção tem de enfrentar. Ora, a nós calhou-nos essa fava logo de entrada: jogar à uma da tarde em Salvador e às sete da tarde em Manaus. E, com esta programação, a decisão de fazer um pré-estágio na costa leste dos Estados Unidos e montar depois quartel-general em Campinas acarreta riscos que talvez nunca se saiba ao certo se foram bem assumidos ou mal pensados.

Quanto ao estágio norte-americano, ele teve desde logo como consequência envolver mais uma viagem transatlântica e umas sete horas de voo a mais do que se a Selecção tivesse ido directa para o local de estágio no Brasil.

Para uma equipa que vai ter de fazer três viagens de médio curso, de ida e volta, por cada um dos jogos da primeira fase - Salvador, Manaus e Brasília - pareceria que tudo o que pudesse poupar o desgaste das horas de voo seria conveniente. Li que o fácil acesso do hotel de Campinas ao aeroporto de Víracopos foi um dos factores determinantes da escolha. Mas não vejo como é que isso pode compensar a desvantagem do número de horas suplementares passadas no avião. Sabendo-se de antemão as três cidades onde Portugal iria jogar, a mim parece-me que optar por ter quartel-general em Salvador ou no Recife seria melhor opção. É certo que o clima é aí mais forte e os treinos seriam mais puxados, mas, não só poderiam estes ser feitos a horas de calor mais brando, como a adaptação ao clima que a equipa terá de enfrentar nos jogos seria mais eficaz.

Enfim, é apenas um desabafo, porque certamente alguém que é pago para pensar nestas coisas melhor do que eu o terá feito. Logo se verá se acertadamente. Oxalá que sim.

3- 0 Mundial começou com uma exibição descolorida da Selecção de Scolari, terminando com a habitual prevalência do resultado sobre o espectáculo, que é uma das imagens de marca do seleccionador brasileiro. Para isso é que a CBF o foi buscar, depois de ele ter acabado de despromover o histórico Palmeiras à segunda divisão. Como habitualmente também, a Selecção anfitriã beneficiou da determinante ajuda FIFA, sob e forma de um penalty descaradamente inventado pelo árbitro, logo seguido de dois golos limpos anu lados ao México e que podem ser importantes em termos de atribuição do primeiro lugar do grupo.

Começou mal o Mundial, cheio de falhas de organização e de casos de arbitragem (e há quem insista que árbitros estrangeiros no nosso campeonato resolveriam todos os problemas!).

4- Eu gosto das selecções que se comportam como a holandesa, não transformando os estágios em reuniões secretas, em fortalezas inexpugnáveis e não
fazendo de cada detalhe à volta da equipa uma notícia de importância extrema. Lembro-me sempre da célebre selecção da Dinamarca que, chamada à última hora para substituir a Jugoslávia num Europeu, requisitou os jogadores que já estavam em férias, permitiu-lhes vir para o estágio com as mulheres e as namoradas, concentrou todos apenas dois dias antes do primeiro jogo e, no fim, acabou campeã, ridicularizando todas as elaboradas teorias sobre concentrações e estágios. Pois a Selecção holandesa neste Mundial, desprezando as imposições extremas de segurança e a propalada necessidade de isolamento para melhor trabalhar, resolveu montar estágio em Ipanema, conceder algumas liberdades nocturnas aos jogadores, e chegou ao cúmulo de atravessar o calçadão em frente ao hotel e ir treinar para a praia, no meio do povão. E, depois, sabe-se o que aconteceu, na hora da verdade: deu um salto a Salvador e desbaratou a Espanha, campeã do Mundo, deixando os espanhóis de gatas, com Robben, seis anos a mais que Sérgio Ramos, correndo a 37 kms por hora, ganhando-lhe dez metros em trinta de corrida, para marcar o quinto golo da Holanda.

5- O Espanha-Holanda pós frente a frente dois jogadores que, em minha opinião, há muito merecem o titulo de melhor jogador do mundo: Andrés Iniesta e Arien Robben. Ambos são jogadores de luxo: na recepção, no passe, na finta, no remate, na exploração dos espaços, na inteligência com que jogam. Mas não podem ganhar o título porque lhes faltam diversas outras qualidades essenciais para tal: não usam brincos nem pulseiras; não têm tatuagens; não têm cortes de cabelo inspirados nos mais estranhos animais da natureza (aliás, nem sequer têm cabelo); não têm milhões de seguidores no Facebook: e não acompanham com top-models. Enfim, são pouco profissionais...

No duelo entre ambos, Iniesta começou bem, mas, tal como toda a equipa espanhola, foi atropelado na segunda parte pela cavalgada das valquírias do Pais Baixo. E, sobretudo, por um fabuloso Arien Robben, que em tempos o Real Madrid desperdiçou. Foi daquelas exibições que ficam para a história do futebol.

6- 0 desfecho das eleições da Liga seria de morrer às gargalhadas, se não fosse o sinal que faltava da podridão em que aquele instituição caiu. Através de anunciados «ventos e fezes», Bruno da Carvalho lá conseguiu fazer eleger o seu candidato imaculadamente limpo, garantindo, com a reeleição do inqualificável Mário Figueiredo, a continuação do apoio da Liga em momentos decisivos. Mesmo que, num universo eleitoral de 35 clubes, só 7 tenham votado nele, com todos os outros a reclamaram da chapeia da ao pior nível de uma qualquer República das Bananas. Eu sei que há gente para tudo, mas nunca tinha assistido a alguém capaz de se agarrar ao poder, numa suposta democracia, com um cardápio de truques tão imaginativo quanto destituído de qualquer resquício de pudor. Tenham, pelo menos, a noção do ridículo de não voltarem a falar da credibilização do futebol português! Os autores de casos de policia não podem ser policias de casos. Que grande época que se perspectiva!

10 de junho de 2014

O futebol no seu pior

1- Com aquele seu tom de voz que parece saído do intestino grosso, o presidente do Sporting brindou-nos com algumas pérolas de português - esse, sem dúvida, todo à roda de coisas ligadas ao intestino grosso. Parece que o tema seria a eleição do futuro presidente da Liga, que não estaria a antever-se de acordo com as pretensões do líder sportinguista. Mas não tenho bem a certeza de que fosse isso, pois que, embrenhado em tanta escatologia, o homem nunca falou claro nem frontalmente, desmentindo o rótulo que gosta de se atribuir de «presidente sem medo», preferindo antes, entre «ventos» e «fezes», ficar-se pelos recados cifrados, as insinuações e as ameaças veladas uma linguagem tão ao gosto dos valentes do futebol português. A imprensa desportiva, que passou um ano a levá-lo ao colo (não deve ter havido um dia, esta época, em que não tivéssemos sido contemplados com os pensamentos profundos de Bruno de Carvalho!), preferiu, desta vez, remeter-se a um pudico silêncio condescendente. E, pela enésima vez, não consigo escapar à pergunta inevitável: e se tem sido o presidente do FC Porto o autor daquele discurso tão edificante? O que restaria de Pinto da Costa depois de uma semana a ser fatalmente apedrejado publicamente por tudo o que é comentador e editorialista? E o jeito que não lhes teria dado um discurso assim tão brega na boca do presidente portista para atestarem que, lá em cima, é assim que se fala, é assim que se pensa, é assim que se degrada o futebol português? Mas, vindo do presidente do Clube dos Viscondes, onde está merda, leiam por favor fezes - que é uma forma erudita de defender a credibilização do futebol português.

Mas, leiamos para além da escatologia. O problema do presidente do Sporting é que, com tanto palco que lhe deram, e que ele aproveitou para uma demagogia desenfreada que a imprensa nunca se atreveu a questionar, ele sabe que, para a época que se segue, já não tem margem de recuo. Se este ano a meta era a Liga dos Campeões, para o ano as expectativas criadas não se contentarão com menos do que o título. Mas, como o titulo, ao contrário do que apregoa Bruno de Carvalho, não se conquista pelo sistema, nem, como ele desejaria, por decreto-lei, resta a hipótese do mérito - uma hipótese jamais levada a sério por qualquer sportinguista que se preze. E percebe-se: o mérito exige um grande treinador, uma grande equipa, muito trabalho, mais organização e profissionalismo e menos palavreado. E isso requer tempo e dinheiro, duas coisas que Bruno de Carvalho não tem: tempo porque o queimou numa fogueira de vaidade claramente superior à sua capacidade; e dinheiro, porque deve 500 milhões. Pode, para tentar enganar papalvos, comprar jogadores por meio milhão ou um milhão de euros a clubes da segunda divisão da Turquia ou de Kansas City, e enfiar-lhes cláusulas de rescisão de 45 milhões para fingir que comprou por tuta e meia extraordinários jogadores que mais ninguém detectou, mas não é assim que terá uma grande equipa, na época que ai vem. A verdade, nua e crua, é que o Sporting actual não vale um segundo lugar na Liga portuguesa e um lugar na Liga dos Campeões. Só lá chegou porque o FC Porto resolveu auto-suicidar-se e porque Leonardo Jardim conseguiu um milagre. Mas, por mais que Marco Silva prove toda a sua valia reconhecida, não é provável, nem que os milagres se repitam, nem que os suicídios possam acontecer duas vezes seguidas.

Por isso, porque já o percebeu, Bruno de Carvalho abriu, com uma antecedência de três meses, a habitual guerra contra o sistema, as forças ocultas e os fantasmas da ópera habituais. E, se isto ainda não começou a sério, imaginem o que não virá aí a partir de Agosto! Vai ser uma época insuportável.

2- Dito isto, também eu (sem verdadeiramente conhecer ou querer conhecer os meandros da coisa) ando estarrecido com o espectáculo, igualmente escatológico, das eleições para a Liga, supostamente amanhã. Os personagens em presença, as suas alianças e traições, o aliciamento escandaloso aos clubes com promessas de Feira da Ladra, tudo aquilo é verdadeiramente eloquente. Mas que grande tacho que deve ser a Liga!

3- Como toda a gente que gosta de futebol, também eu gosto do treinador Jorge Jesus: nos últimos dois anos, não vi aqui melhor futebol do que aquele que o Benfica de Jesus jogou, não este ano (embora tenha chegado largamente para as encomendas locais), mas sim no ano passado, o ano em que tudo perdeu. Mas, se isto é um elogio, eu retiro-o já, para não melindrar o seu destinatário. Pois que, como decretou o próprio do alto da sua cátedra, um licenciado em direito, assim como um médico, não pode, por natureza, perceber nada de futebol. E, assim sendo, nada pior do que um ignorante no assunto, atrever-se a fazer criticas (ou elogios, suponho) a quem, a duras penas, concluiu três patamares daqueles cursilhos de Verão de onde se sai doutorado em treinador de futebol.

Eu compreendo o ponto de vista: Jorge Jesus limita-se a defender o seu couto privado. Eu não contesto que, quem ganha o que ganha Jorge Jesus, quem tem por profissão treinar uma equipa de futebol, tem necessariamente de perceber muito mais do assunto do que o espectador de bancada. Quando tive a sorte de ter uma fugaz percepção do que era José Mourinho a trabalhar, por exemplo, tive uma pequena ideia daquilo que era a minha imensa ignorância na matéria. Mas Mourinho é, de facto, uma excepção — muito poucos o conseguem imitar. No essencial, eu continuo a acreditar nisto: o futebol é um jogo simples que muitos treinadores complicam, ou por auto-defesa ou para poderem argumentar com resultados contra desempenhos. Mas, no essencial e em quase todos os casos, não há nenhum espectador de anos de bancada e que goste de futebol que não seja capaz de perceber quando é que um jogador é bom e quando não presta, quando uma equipa sabe o que faz em campo e quando apenas para ali anda, quando é que o futebol vale a pena ser visto e quando não passa de um embuste.

O que o futebol tem de mais democrático e o que justifica toda a paixão com que é vivido pelos adeptos é justamente o facto de ser um jogo facilmente entendível por quem está habituado a vê-lo. Não é uma ópera nem um filme do Manoel de Oliveira. No dia em que os médicos ou os advogados, os contabilistas ou os electricistas, tenham de pagar bilhete para ficar mudos e calados, no dia em que não lhes seja permitido manifestar opinião sobre o desempenho de uma equipa, de um treinador ou de um jogador, todo o show-business em que Jorge Jesus habita luxuosamente estará ameaçado. E já faltou mais. Como diz Tostão — o ponta-de-lança do inesquecível Brasil do Mundial de 72, e depois treinador, médico e actualmente comentador — «o que mais me fascina no futebol é aquilo que eu não consigo entender nem explicar». Ouviu, Jorge Jesus?

4- As lesões de Ribery e de Réus, ajuntar a todas as outras, tornaram actual uma discussão que para aqui puxei, quando do Mundial da África do Sul: se os Mundiais são, por excelência, a montra do futebol, não podem ser disputados no final da época, quando os melhores jogadores já estão massacrados ou saturados de futebol. Se os ilustres cappi do futebol mundial, os Blatter e Platinis, se preocupassem mais com o espectáculo e menos com os lugares luxuosos que garantiram, a discussão merecia ser levada até ao fim. Assim, resta-nos esperar que o Mundial do Brasil, que agora começa, possa ser, contra todas as contrariedades, uma homenagem ao futebol. Pessoalmente, desejo isso e desejo também que a bola comece a rolar rapidamente para que eu possa esquecer a fase da náusea publicitária-patriótica e possa começar a torcer e a sofrer por Portugal.

5 de junho de 2014

Muito dinheiro, pouco futebol

1- A quinze dias da abertura do Mundial, como seria de esperar, nada do que interessava ao Brasil, em termos de infraestruturas, está pronto. Estarão prontos, e alguns apenas à 25ª hora, os estádios considerados necessários para a competição - que não para o pais. Estádios como os de Manaus e Brasília, onde Portugal jogará, que já têm traçado o seu destino de elefantes brancos - além do mais, com custos inevitavelmente ultrapassados em multo. Em contrapartida, aquilo que interessava aos brasileiros comuns - aeroportos, estradas, hospitais, melhorias nas cidades - foi, ou esquecido, ou remendo para calendas brasileiras. A grande empreitada exigida ao Brasil para montar a faustosa festa a que a FIFA chama Mundial de Futebol, está pronta naquilo que imediatamente interessa à FIFA (com a grande incógnita de se saber se a componente fundamental das comunicações funcionará, num país que, até aqui, estava na idade da pedra das comunicações). Mas se, à 25ª hora. a FIFA se poderá dar, se não por satisfeita, ao menos por aliviada, o mesmo não poderão dizer os brasileiros, ao constatarem que quase tudo o que a empreitada tinha a ver com a melhoria das suas condições não estará feito e provavelmente jamais será feito. Ou seja: as sempre invocadas contrapartidas úteis para os países organizadores das grandes competições do futebol actual revelaram-se um embuste - mais um. Se eu fosse brasileiro e vivesse hoje no Brasil, seria, declarada e ferozmente, contra o Mundial.

Acho insustentável que um pais com tantas carências básicas e tanta desigualdade social tenha feito do Mundial, não uma oportunidade de melhorar qualquer coisa, mas sim de se arruinar, gastando dinheiros públicos sem sentido e apenas em benefício de alguns grandes construtores e fornecedores.

2- Porém, se a responsabilidade política dos decisores brasileiros não pode ser escamoteada, também é tempo de se olhar para o resultado devastador da passagem pelos países dessa tenebrosa organização chamada FIFA - aliás, montada, na sua actual natureza de organização meia secreta de negócios obscuros, por um sinistro e condecoradíssimo brasileiro, de seu nome João Havelange. Quanto mais a FIFA foi alargando os Mundiais, até chegar ao inconcebível número actual de 32 participantes, mais a festa se tornou dispendiosa, a sua organização ruinosa e o futebol exibido um pior espectáculo. Mas, em contrapartida, mais a FIFA e as Federações dos países participantes acumulam lucros com os quais sustentam uma vida de verdadeiros nababos dos seus dirigentes. A FIFA e a UEFA. Por isso, não se cansam, de inventar novas provas, como o Mundialito de Clubes ou a Taça das Confederações, ou um novo Europeu em estudo na UEFA. Mas, por onde passam, eles arruínam os países, excepto se já forem ricos e tiverem as infraestruturas de origem ou se forem novos-ricos, como a Rússia ou o Catar, que têm dinheiro de sobra para pagar estas vaidades.

E, desde que paguem, a FIFA aceita ir a jogo. E, pois, sem surpresa alguma para quem está atento a estas coisas, que agora se começa a descobrir como é que um pais tão inverosímil para sediar um Mundial, como o Catar, viu a FIFA atribuir-lhe a responsabilidade de o organizar em 2022: através do suborno de dirigentes das Federações nacionais e da própria FIFA. Para esta camarilha internacional não tem qualquer relevância o facto de o Catar não existir no mundo do futebol, de uma competição aí jogada em Junho e Julho ter de ser feita sob temperaturas de deserto arábico ou de, até à data, já terem morrido duzentos trabalhadores nepaleses, trabalhando em regime de semi-escravatura para que, a tempo e horas, claro, assegurarem os monumentos que a FIFA exige.

3- Nada disto tem que ver com futebol. Tudo tem apenas a ver com os biliões que giram à roda do negócio do futebol e que chegam, a todos os níveis em causa, para alimentar fortunas colossais de uns quantos; dirigentes nacionais e transnacionais, jogadores-vedetas e seus agentes, dirigentes de clubes e intermediários que compram e vendem jogadores e clubes, partilham bocados dos passes dos jogadores através de sociedades off-shore, fugindo ao fisco e vivendo na sombra de todos os negócios. Uma verdadeira máfia sem fronteiras, que vive e se alimenta da aficción do públíco do futebol.

É por isso que, como saberão os meus leitores antigos, eu execro a diarreia nacionalista que se monta nestas ocasiões à volta da Selecção, como se eles fossem os novos (e únicos) heróis da Pátria. Não suporto as campanhas de publicidade sempre com apelos ao patriotismo, como se o patriotismo fosse receber uma fortuna para representar Portugal a dar chutos numa bola. Não suporto as coberturas de imprensa em directo de cada passo dado pelos heróis da Selecção - a saída do estágio, a partida e chegada do autocarro, a zona VIP do aeroporto, o hotel da Selecção, os menus especiais feitos para os heróis, as conferências de imprensa, modelos de banalidade e vacuidade, repetidas e retransmitidas ad nauseum. E o Presidente da República que recebe os heróis e os pré-condecora à partida do solo pátrio, quais Vascos da Gama prestes a arriscarem a vida na travessia do Cabo das Tormentas em demanda da índia. Para mim, patriotismo é outra coisa, muito mais simples e que também não exclui, sendo o caso, os jogadores da Selecção: pagar os impostos devidos, votar nas eleições e dar mais ao seu pais do que aquilo que se recebe dele.

Toda esta diarreia noticiosa, toda esta confusão deliberadamente estabelecida entre futebol e pátria, visa uma única coisa, que a imprensa, consciente ou inconscientemente, alimenta: manter o público mobilizado, manter as multidões cativas. Pois que, sem público e sem multidões, não há dinheiro que sustente o negócio. Não há publicidade, não há transmissões televisivas, não há forma de vender jornais, não há possibilidade de pagar fortunas e cobrar comissões de 10% na venda de um jogador. É preciso que o público continue a acreditar que este é o maior espectáculo do mundo, que afasta e sufoca tudo o resto, pois que ninguém pode adormecer uma noite sem saber que o Raul Meireles fez uma nova tatuagem e sem saber que o Crístiano Ronaldo já faz trabalho de ginásio.

E, todavia, eu adoro futebol. Gosto tanto, que sou capaz deparar e ficar a ver um futebol de praia ou um futebol de rua entre miúdos. Acho o futebol o mais democrático e o mais igualitários de todos os desportos, pois que, no limite, basta apenas uma bola, nem que seja de trapos, e uma baliza delimitada por duas pedras para poder ser jogado. E fascina-me a universalidade do futebol, a sua linguagem simples e intuitiva em cada canto do mundo. Mas a indústria do futebol moderno é o oposto disso: é a sua apropriação por uma seita de abutres, de gente que é capaz de comprar um clube como o Manchester United sem nunca antes ou depois ter ido ao estádio ver um jogo, apenas porque concluiu que a alienação de massas que o futebol consegue gerar como poucas outras actividades é uma oportunidade de negócio imperdível.

E o problema é que quanto mais o futebol custa milhões e gera milhões, mais jogos e mais competições exige, ao ponto em que a repetição, a rotina e o cansaço de atletas e espectadores, irem aos poucos minando o fascínio do jogo. São assim os absurdos Mundiais dos tempos modernos. Se quiserem encontrar um jogo-tipo desse futebol cansado e exaurido de que falo, desse futebol que fatalmente iremos ver no Mundial do Brasil, peguem no Portugal-Grécia de sábado passado. Podem dar-me todas as justificações e desculpas para aquele futebol de eunucos, mas, tanto quanto sei, o espectáculo era pago e houve 35.000 espectadores que pagaram bilhete para assistir àquela tristeza. Pela parte que me toca, agradeço a Paulo Bento, a Fernando Santos e aos seus seleccionados, uma reparadora sesta, que começou aos 20 minutos de jogo e só acabou depois do apito final, com a certeza de que, ao abrir os olhos para ver o resultado final, ele só podia ser o do início: 0-0.

27 de maio de 2014

Sem surpresa


13 de maio de 2014

Fim ciclo, não: Fim de equipa

 Sentado nas bancadas do Dragão, Julen Lopetegui olhava enfastiado, como todos os tristes 25.000 espectadores, um Porto A - Benfica B, que parecia do tempo do futebol de tamancos. Mesmo não tendo o conhecimento adquirido que os portistas têm sobre o que foi a evolução desta equipa, após se ter procedido ao seu desmantelamento paulatino sem correspondente reforço à altura, o novo treinador basco do FC Porto só podia pensar o mesmo que os adeptos: o tão cantado (e desejado por outros) fim de ciclo do FC Porto é, talvez, uma notícia exagerada, um wihsfull thinkwg que eles não conseguem disfarçar; mas o fim desta equipa, esse é evidente. Com estes, Lopetegui ou qualquer outro não chegam a porto nenhum. Se dúvidas houvesse ainda, bastava vê-los, sábado passado a jogar contra a reserva do Benfica: nem mesmo a dívida que têm para com os adeptos, a motivação do orgulho ferido ou o brio de se despedirem de uma época lastimável deixando alguma réstia de esperança aos adeptos, antes de partirem para umas longas férias, os estimulou: com raras excepções, muito raras mesmo, a equipa mostrou uma falta de qualidade, de atitude e de profissionalismo que explicam bem as razões do desastre. Aquilo não é o FC Porto, é uma caricatura dele. Mais valia ao novo treinador portista - cuja experiência, aliás, se limita aos jogadores jovens — ter ido antes assistir ao Porto-Benfica em juniores, no Olival, em que os jovens portistas derrotaram a tão celebrada equipa do Benfica, impedindo que fosse campeã e oferecendo o título de bandeja ao SC Braga.

 Como tantos outros portistas, também eu queria um treinador estrangeiro. Não porque o achasse necessariamente melhor (Marco Silva ou Domingos seriam sempre apostas tentadoras), mas apenas porque queria alguém que fosse imune ao círculo viciado das jogadas dos empresários e dos interesses ocultos, que fazem com que se compre este e não aquele jogador, que jogue este e não aquele. É um mundo subterrâneo, que temos tendência a não acreditar que exista, mas que existe mesmo. Queria alguém, que vindo de fora e desconhecedor desse mundo, tivesse o pretexto ou a autoridade para lhe fazer frente. Mas como tantos outros portistas também, desconheço em absoluto quem seja Lopetegui e, obviamente, só posso ter a maior apreensão pelo facto de se tratar de um treinador sem qualquer experiência de estar à frente de uma equipa - mais ainda de uma equipa que, há pouco ainda, estava entre as 20 mais da Europa. Será, pois, nova experiência de salto sem rede, por conta e risco do presidente.

 A boa notícia da contratação de Lopetegui foi o anúncio de que ele chegava ao Dragão pela mão de Jorge Mendes. Isso significava duas coisas: que vinha com um selo de qualidade, como quase todos os que Mendes representa, e também de que teria sido enterrado o contencioso entre a SAD do FC Porto e o empresário a quem o FC Porto tanto deve e que se havia afastado porque, tal como Angelino Ferreira ou António Oliveira, não esteve pactuar com o que por lá viu.

Afinal, e como aqui escreveu João Bonzinho, tal não passava de um botão falso, posto a correr com intenções estranhas: Mendes está fora da escolha e continua fora do horizonte de trabalho com a SAD do FCP. E é pena, muita pena, porque ele é, de facto, a excepção entre todos os que se proclamam empresários: não é homem de vender gato por lebre, de só querer ficar com os negócios fáceis, de cobrar comissões por jogadores comprados a custo zero e outras façanhas que tais. Jorge Mendes teve um papel determinante na formação da equipa que conquistou a Liga dos Campeões em 2004 e na que assinou uma época de sonho em 2010. E a perda dos seus serviços foi ainda mais penalizadora porque ele, afastado do FC Porto, passou a colaborar estreitamente com o Benfica. Muito se tem escrito e louvado o papel de Luís Filipe Vieira e de Jorge Jesus na ressurreição do Benfica e nesta época magnífica que está a fazer. Mas, não desfazendo nos seus méritos, espanta-me que nada se diga sobre o terceiro personagem que teve um papel decisivo nesse processo, se não mesmo o papel principal: Jorge Mendes. Muito do que é hoje a equipa do Benfica, muito do que é o plano de salvação financeira do Benfica, assenta decisivamente na capacidade de visão, de construção e de aproveitamento de oportunidades negociais por parte de Jorge Mendes. Só que há uns que gostam dos holofotes do palco e outros que se mantêm discretos, nos bastidores.

 Em Novembro passado, depois de ter andado por algumas cidades brasileiras, escrevi aqui que, infelizmente, tinha as maiores dúvidas de que o Brasil viesse a estar preparado em condições para receber o Mundial. Hoje, a pouco mais de um mês do início, as minhas previsões são as de muita gente, brasileiros incluídos. Eu sei que há sempre um jeito lusitano de dar a volta às coisas à 25ª hora, e também sei que há sempre um outro jeito lusitano de ir atrasando deliberadamente as obras para, no aperto final, exigir pagamentos extraordinários para entregar a empreitada a tempo. Mas não me refiro apenas aos estádios, refiro-me a tudo o resto: aeroportos, controle aéreo, serviço de fronteiras, estradas, infraestruturas, segurança, organização. De tudo isso, nada ou quase nada está pronto, e chegou-se a um ponto em que, como dizem os brasileiros, só resta rezar. Mas tinha mesmo de ser assim?

O Mundial pode até acontecer sem acidentes nem incidentes, ser um sucesso popular e ajudar a resgatar grande parte das desconfianças que recaem sobre o Brasil. Oxalá que sim, é o que eu mais desejo, como apaixonado de há muito por esse grande, diverso, contrastante e fascinante pais. Mas há uma coisa, que, infelizmente, já sei que não vai acontecer: aproveitar a grande oportunidade que o Mundial constituía para iniciar a tarefa de reconstruir um Brasil moderno e eficiente sobre uma paisagem desgastada por décadas de laxismo e degradação. E aproveitar a oportunidade para também iniciar a imensa tarefa de transformar a paisagem social brasileira, fazendo com que a empreitada do Mundial revertesse a favor da economia das pessoas e dos mais desfavorecidos. Afinal, temo que o Brasil fique cheio de estádios inúteis, cujo custo será um encargo para os contribuintes e um grande negócio para as construtoras, e nada mais de palpável fique. Se isso acontecer, será também uma lição para FIFA, que, por interesse próprio, transformou os Mundiais num arraial de despesas sumptuárias, numa absurda competição de 32 Selecções que dura mais de um mês, e cuja organização ou é comprada por novos-ricos, como a Rússia ou o Qatar, ou arruína os países emergentes que se abalançam à sua organização, deixando para trás um rasto de dívidas escandalosas e mais injustiça social.

 Pela terceira ou quarta vez, o Belenenses vai propor a sua Cidade Belenenses, nos terrenos de luxo de que dispõe no Restelo, e como forma de acrescentar receitas do imobiliário às que o desporto não lhe dá. Gosto muito do Clube de Futebol os Belenenses, mas não tanto que possa aceitar, sem indignação, a destruição de uma zona nobre de Lisboa para acorrer às crónicas dificuldades de tesouraria do clube. Convém recordar, outra vez, que o Belenenses investiu zero euros no seu estádio e terrenos circundantes. Foi-lhe tudo oferecido pela Câmara — com a condição óbvia de serem áreas destinadas à prática desportiva e nada mais. Em troca de poder usufruir em exclusivo de um dos mais belos estádios do país, numa zona luxuosa e com uma vista única, o Belenenses tem a responsabilidade para com a cidade de preservar, respeitar e dar o melhor uso ao que recebeu de nós todos. Se, porém, as suas gerências não são capazes de tirarem partido do que receberam e encontrar formas criativas de rentabilizar o clube sem ser com a receita fácil e predadora da construção imobiliária, pois então que fechem o clube e devolvam à cidade o que não souberam aproveitar.

6 de maio de 2014

Madrid em Lisboa


29 de abril de 2014

Este pesadelo não tem fim?



Retirado do blog sou portista com orgulho

22 de abril de 2014

Uns no Marquês, outros na morgue



Retirado do blog sou portista com orgulho, retirei o antigo ( não se conseguia ler bem)

15 de abril de 2014

Já nem temos Sevilha!


8 de abril de 2014

O Meu Clube e Eu




Retirado do blog"sou portista com orgulho"

1 de abril de 2014

Basta ?


Retirado do blog souportistacomorgulho

18 de março de 2014

Meticulosamente preparado . MST

1- Dizia-me ontem alguém completamente fora das polémicas do futebol português que ou o FC Porto é mesmo o clube de vigaristas que passa a vida a ouvir dizer que é, aqui por Lisboa, ou então tem muito má imprensa e muito pouca presença na imprensa. Foi isso mesmo que lhe expliquei: por muito que o FC Porto tenha feito para se tomar o clube português mais vencedor e prestigiado no mundo inteiro, há uma coisa que ele nunca conseguiu: ser tratado com um mínimo de isenção pela imprensa desportiva, quase toda sediada em Lisboa e adepta de Benfica e Sporting.

Na semana que passou, enquanto FC Porto (e Benfica) tratavam de tentar prestigiar o futebol português além-fronteiras, somando pontos para que clubes como o Sporting, sem nenhum mérito próprio, possam participar em coisas como a milionária Liga dos Campeões, este tratou de tentar desprestigiar o futebol português no estrangeiro prometendo denunciar o cambalacho em que jura penar a instâncias como a UEFA e a FIFA (que já devem ter uma secção só para arquivar as reclamações do Sporting), bem como intentar todo o tipo de acções junto dos tribunais (de qualquer espécie e incluído o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem), a UE e o próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas - onde espera que a sua causa seja discutida logo depois da questão da Crimeía.

A mesma imprensa desportiva que fuzilou Pinto da Costa por ele se ter atrevido — uma única vez em toda a época! — a criticar uma arbitragem (a do Benfica-Porto), assistiu agora, colaborante e cúmplice, à mais despudorada campanha de pré-condicionamento de uma arbitragem de um jogo alguma vez montada por um clube. O pretexto era a frustração por ter visto uma vitória em Setúbal, prestes a ser alcançada graças a um penalty fabricado por Capel, fugir-lhe, afinal, noutro penalty inexistente. Em nenhum momento passou pela cabeça daqueles cavalheiros a deselegância para com um adversário, o Vitória, que se batera de igual para igual, fora prejudicado de igual para igual e jamais mereceu perder o jogo. Mas é esta a mentalidade de um clube que, depois de ter terminado a época passada em sétimo lugar, a 36 pontos do campeão (!), tem a suprema lata de dizer que vai processar tudo e todos, e os que ficaram à sua frente com todo o mérito, por «não o terem deixado ir às provas europeias»!

Como toda a gente percebeu, a ridícula e histérica campanha montada pela direcção do Sporting - e que chegou ao cúmulo do desprestígio institucional de ser recebida pela AR, o PR e com encontro marcado com a PGR — visava apenas preparar a arbitragem do jogo de domingo, em Alvalade. A inadiável «moralização do futebol português» pretendia apenas conseguir uma arbitragem à medida dos seus aristocráticos direitos no jogo contra o FC Porto. Pela primeira vez que eu me lembre em toda a minha vida, do primeiro ao último minuto do jogo de Alvalade, não ouvi um único protesto contra o árbitro.

Houve ilustres sportinguistas que chegaram a dizer que o que queriam era um árbitro estrangeiro, e um deles até sugeriu Howard Webb. Por acaso, há 15 dias, vi Webb arrumar o Liverpool da Taça de Inglaterra com duas decisões daquelas que transformariam o movimento «Basta!» no movimento Mata!, se têm sido em prejuízo do Sporting. Dos quatro jogos que vi das duas mãos dos oitavos da Champions, em três deles vi decisões grosseiramente erradas e determinantes no resultado — a favor e depois contra o Barcelona e a favor do Bayern. E quinta-feira, no Dragão, vi um golo mal invalidado ao FC Porto, que poderia ter garantido logo a passagem da eliminatória com o Nápoles.

Em todo o lado, os árbitros erram e os melhores deles também: umas vezes sem querer, outras influenciados pelo ambiente, outras, que acredito serem raríssimas, de propósito. Como sempre escrevi e manterei, qualquer equipa que queira mesmo ganhar tem de saber ser capaz de ultrapassar erros de arbitragem e eles só se tornam relevantes e difíceis de aceitar quando uma equipa é francamente melhor do que a outra, tudo faz para ganhar e só não o consegue por erros determinantes de arbitragem. Contra o FC Porto, como já sucedera nos seus três jogos anteriores, o Sporting nunca foi superior ao adversário — mas ganhou três deles e empatou um. Ao intervalo do jogo com o Porto o Sporting não tinha criado uma só ocasião de golo e vira o FC Porto dispor de três flagrantes: uma salva por Patrício, outra pela barra, outra por Pedro Proença. Na segunda parte, teve a primeira oportunidade num cabeceamento defendido por Helton e a seguir chegou ao golo, da forma que se sabe e que, graças àquelas linhas que a pós-produção televisiva permite desenhar no campo, não pode ser contestada por ninguém. Aliás, nem foi um off-side milimétrico, mas sim métrico, bem visível a olho nu. Depois disso, aproveitando o efeito psicológico do golo assim obtido e o da grave lesão de Helton, aproveitando o cansaço dos jogadores portistas, vindos de um jogo intenso com o Nápoles e, ao contrário do Benfica, logo enfiados noutro 72 horas depois, o Sporting limitou-se a gerir e a perder tempo, recuando e criando inevitavelmente alguns contra-ataques perigosos, mas mais nenhuma ocasião de golo. Mesmo assim, ainda viu a ponta da bota de Dier salvar milagrosamente um golo de Jackson no último segundo e um remate de Ghilas ameaçar o golo. Teve o mesmo número de ataques e de remates que o FC Porto; menos bola, duas oportunidades contra quatro e dois cantos contra sete. Escrever, como aqui o fez o grande anti-portista Fernando Guerra, que «o Sporting ganhou com justiça», passar por cima do penalty' perdoado como se não tivesse dado por nada, nem pela controvérsia, e escrever sobre o golo que decidiu o jogo que «acontece aqui e na China», reflecte, de facto, aquilo que acima escrevi sobre a grande fraqueza portista: ter uma imprensa que lhe é esmagadoramente hostil. Eu queria ver como estaria hoje o país se as duas decisões determinantes de Proença têm sido ao contrário! Queria ver se o titulo de Fernando Guerra teria sido o mesmo!

Causou-me estranheza que, no meio de tanta histeria sportinguista contra as arbitragens, não tivesse saído dali uma palavra sobre a antecipação da nomeação do árbitro, sobre a sua posterior «baixa» e, a seguir, sobre a sua substituição por Pedro Proença — que, todavia, também estava na lista dos bandidos de alguns notáveis sportinguistas. Que aquela gente, que sempre desconfia de tudo e mais alguma coisa, tenha ficado em silêncio sobre estes factos, deixou-me, devo confessar, apreensivo. Logo percebi porquê: o Sporting devia ter a garantia de que ninguém mais tinha a autoridade de Proença para poder acalmar os ânimos, fazendo o que fosse necessário para tal, em Alvalade. Pedro Proença sacrificou-se em defesa da arbitragem e da momentânea acalmia dos cavalheiros sportinguistas. Não foi só o penalty perdoado e o golo em off-side,  foram cinco livres no meio-campo defensivo do FC Porto e contra ele que não existiram e a expulsão de Fernando, verdadeiro prémio ao anti-jogo de Montero.

Restam dois factos a considerar, segundo a lógica sportinguista: no Estoril, na Luz e em Alvalade — isto é, no terreno dos nossos três adversários directos — o FC Porto deixou sempre pontos por força de decisões erradas dos árbitros: dois no Estoril, um, pelo menos, na Luz, e três em Alvalade. Só aqui, já estão quase os mesmos sete de que o Sporting se queixa (e que, agora, passaram a quatro). E, no capítulo das indemnizações, a confirmar-se esta classificação no final, o Sporting, Pedro Proença e Vítor Pereira devem-nos, solidariamente, 8,6 milhões de euros.

2- Faço a Luís Castro o mesmo pedido que fiz em vão a Vítor Pereira e Paulo Fonseca: reveja com atenção, por favor, as actuações de Varela e Defour e diga-me para que servem eles. O primeiro não ganha uma jogada em velocidade nem acerta um centro; o segundo só acerta passes miúdos para o lado ou para trás.

3- Na brilhante vitória do Benfica em Londres, um senhor e um triste cavalheiro. O senhor foi Luisão, o triste cavalheiro foi Jorge Jesus.

11 de março de 2014

`Minds Games para Alvalade


4 de março de 2014

A conspiração da liga de clubes

25 de fevereiro de 2014

Vai tudo abaixo?

1- Foi uma semana trágica para os portistas, com uma única excepção: a vitória por 5-0 sobre a tentativa do Sporting de nos ganhar na secretaria o que perdera em campo, na Taça da Liga. Nem sequer o relator do processo no CD da Federação, conhecido por ser sportinguista e anti-portista, deu razão à absoluta falta de razão dos viscondes. No acórdão, ficou explicado, para quem sabe ler e é sério, que nem a lei aplicável era aquela, nem o doto se presume sem prova, nem o princípio, que vem do direito romano, de ter de provar o que se acusa e ter de dar oportunidade ao acusado de se defender pode ser afastado só porque apareceu alguém em cena que se reclama ungido do poder de inventar novas regras a bem da moralização. Se parassem para pensar - o que não farão - alguns sportinguistas sérios podiam dar-se ao incómodo de ler o acórdão e meditar na triste figura que fizeram, na profunda desonestidade intelectual de toda esta «porcaria de trazer por casa», como escreveu (com o sentido inverso) o Eduardo Barroso.

2- De resto, no campo, continuámos a acumular desaires, frustrações e recordes negativos para a história. Uma sequência de quatro jogos europeus em casa sem ganhar nenhum, a primeira derrota caseira para o campeonato em cinco anos e meio, a primeira derrota com o Estoril no nosso estádio - e tudo a acumular aos outros recordes negativos já registados em breves seis meses por esta equipa para a história. Mas o pior de tudo, a pior notícia de todas, foi a demissão do administrador da SAD Angelino Ferreira.

3- Nunca tive, não tenho e já vou ficando velho para qualquer dia poder vir a ter qualquer apetência de poder. O poder que deriva dos cargos, das situações de liderança, da vá glória de mandar. Ter autoridade, mandar nos outros, influir directamente nas suas vidas, é coisa que nunca me atraiu. Prefiro o poder solitário de pensar por mim e para mim, a grande liberdade de não ter que responder por ninguém que não por mim mesmo, de fazer o que quero, me apetece e me parece justo, de não ter de ganhar a vida em negócios onde se ganham milhões roubados a alguém. Mas não critico os que gostam de mandar, de dirigir, de serem reconhecidos como autoridade. Talvez seja, por vezes, um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer. A razão principal pela qual não alinho no bota-abaixo geral dos políticos, uma actividade tão cara aos portugueses e à sua cidadania de café, é exactamente porque eu não quereria nem o trabalho nem a vida deles. E, acima de tudo, não quereria governar os portugueses. E ainda bem que não tenho essa vocação, pois constato que é mais fácil conquistar o poder do que largá-lo. A política está cheia de exemplos desses - Salazar, Cavaco, Alberto João Jardim, para só falar de alguns dos próximos. E o futebol também - Blatter, Havelange, Platini, Pinto da Costa.

4- A beira de completar 80 anos - uma idade na qual me imagino a desejar apenas voltar a ver Veneza ou Marraquexe, viver ainda manhãs e noites de Verão, ler os livros que nunca li e ver crescer as árvores e netos que plantei — Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do FC Porto há tantos anos quantos os que Jardim leva de presidente da Madeira, e à sua semelhança, não dá quaisquer sinais de querer abdicar de uma migalha que seja do poder, do mando, da glória e do protagonismo do seu cargo. Ninguém lhe pode retirar o direito de o querer nem a legitimidade de, em os sócios querendo, continuar no seu lugar, indiferente à lei da vida.

Porém, a armadilha do poder longamente exercido é que o seu detentor acaba fechado em si mesmo, imaginando que o mundo nunca mudou nem mudará e que o seu génio e a sua glória são de tal modo irradiantes que nenhuma lei da vida os poderá contrariar. E, à medida que as coisas lhes vão escapando progressivamente sem que eles dêem conta disso, a corte que espera a sucessão torna-se impaciente, sôfrega, minada por conspirações, guerras intestinas ou, antecipando o fim de uma era, entrega-se à mais selvagem das actividades humanas, a do «salve-se quem puder, enquanto é tempo».

A longa e pacífica monarquia constitucional que foi o FC Porto de Pinto da Costa, está, como bem notou Vítor Serpa, a degenerar para um Império em decadência — aparentemente final. Estão ali todos os sinais que fazem lembrar o estertor de alguns imperadores romanos e os indícios fatais dos punhais desembainhados nas sombras palacianas da corte. Angelino Ferreira, o tesoureiro do clube, era o mais sério e o mais respeitado dirigente da SAD, dentro e fora do universo portista. A sua saída voluntária e previsivelmente silenciosa não aconteceu nem por cansaço, nem por birra, nem por desentendimentos com Pinto da Costa. Todos os portistas, porém, são capazes de adivinhar porque razão foi. E aquilo que dói é perceber que os adeptos, os sócios, os que verdadeiramente amam o clube, os que com ele gastam tempo, dinheiro e emoções sem jamais esperar receber um euro em troca, sentar-se no camarote presidencial ou receber um Dragão de Ouro, não são tidos nem achados enquanto uns poucos fazem do clube aquilo que querem ou o mais de que são capazes, que é bem pouco, e ficarão até ao fim, a repartir os despojos. Um clube, para mim, não é isto.

5- Sendo este o estado da nacão portista, é bem fácil para os que nos querem mal, dizer que a culpa da situação actual não é do treinador. É verdade que a culpa não é só dele, que o mal começa bem mais acima dele, mas isso não exclui, como é óbvio e visível a olho nu, a responsabilidade do treinador no triste desempenho desta triste equipa. A escolha e manutenção de Paulo Fonseca é reflexo da crise de liderança do clube mas a sua demonstrada incapacidade é um facto por si mesmo. Como aqui escrevi logo em 24 de Setembro (O síndroma do clube pequeno), e numa altura em que, todavia, em sete jogos oficiais, Paulo Fonseca tinha ganho seis e empatado um, tinha ganho a Supertaça e o primeiro jogo, e fora de casa, da Liga dos Campeões, eram para mim já claros «os sinais da mentalidade de um treinador de equipa pequena, que ainda não realizou que está num outro mundo, de exigências e estratégias». E por isso, como então o disse, eu não acreditava que o FC Porto fosse a lado algum com Paulo Fonseca. E, como o escrevi, não se tratava apenas do risco de perder uma época, mas também o de quebrar a cultura de vitória de um clube grande e habituado a ela e de desperdiçar talentos emergentes como Iturbe, Atsu, Kelvin ou Quintero.

É bem verdade que de nada serve ter razão antes de tempo, mas, pelo menos, ninguém me pode acusar de ter esperado pelas derrotas para então extrair fáceis conclusões. Apesar de tudo, não deixa de me espantar a total incapacidade de Paulo Fonseca para ir percebendo alguma coisa com os erros acumulados. Quando lhe perguntaram, no final do jogo com o Estoril, porque não recorrera a um médio criativo como Quintero, ele respondeu que entendera que o jogo não tinha características adequadas para ele. O problema, porém, é que nenhum jogo, do seu ponto de vista, tem as características adequadas para Quintero — visto que nunca o coloca a jogar. E um treinador que não percebe e não aproveita o génio que ali está e, em lugar disso, dedica seis meses a minar-lhe a confiança e a vontade, que o deixa a ele e ao Carlos Eduardo de fora da lista da Champions, pode ser, o que não duvido, muito trabalhador e bem intencionado, mas nunca servirá para um clube grande. Como não servirá um treinador que chama três nomes diferentes ao seu adversário europeu, nunca acertando com o seu verdadeiro nome e deixando, a mim pelo menos, a impressão de que, pura e simplesmente, não conhecia o adversário — e por isso se deixou surpreender por ele daquela forma exemplar que deve passar a constituir matéria de estudo nos cursilhos de Verão onde se formam treinadores.

6- A Champions foi uma vergonha. O campeonato está entregue. Mas, quem sabe, talvez ganhemos em Munique, Dortmund ou Leverkusen, depois de amanhã, e continuemos na Liga Europa. Talvez ganhemos a Taça de Portugal e a Taça da Liga. Talvez fiquemos à frente do Sporting e do Estoril no campeonato. Ainda podemos ter alguns sonhos. Ou ilusões. Já não sei bem qual é a diferença.

PS: A melhor profissão do mundo é ser steward no Estádio da Luz. Provoca-se os jogadores adversários (provado na sentença), arma-se confusão, leva-se uns murros ou pontapés e recebe-se 30.500 euros de indemnização. Já vi mortes valerem bem menos nos tribunais portugueses.

18 de fevereiro de 2014

O que realmente devia importar

1- Suponho que Jorge Jesus tem a obrigação profissional de ver vários, muitos, jogos de futebol disputados por esse mundo fora. E, se assim é com certeza, só por piada é que de pode dizer que o nosso campeonato é o quinto ou sexto em qualidade. Este fim-de-semana, retido em casa por este mau tempo que não nos larga, fiz uma verdadeira maratona de futebol televisivo, vendo jogos do nosso campeonato e de Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e Brasil. Adormeci em partes do Paços-Benfica, do Sporting-Olhanense e do Manchester City-Chelsea - onde Mourinho, obrigado a desculpar-se em campo das afirmações mal-educadas que fez sobre o seu colega de trabalho Arsène Wenger, e obrigado a justificar sempre os salários escandalosos que ele e os jogadores da sua equipa de luxo recebem do senhor Abramovich — foi eliminado da Taça de Inglaterra depois de uma exibição que roçou a vergonha (nem uma oportunidade de golo, nem um remate à baliza!). Mas vi também o esplendor de um Barcelona-Rayo Vallecano (6-0), perguntando-me pela enésima vez como é que alguém que goste de futebol não fica pasmado a ver jogar aquele Barcelona e o seu génio Lionel Messi.

Com melhores ou piores jogos, de Bilbau a São Paulo, vi, pelo menos, os jogos serem disputados em relvados onde qualquer um que saiba e queira consegue jogar futebol de categoria. Em contraste, vi o Benfica em Paços de Ferreira e o FC Porto em Barcelos jogarem em batatais onde até o futebol amador deveria ser proibido. É uma vergonha que se invista num estádio novo, pago pelos contribuintes (em Barcelos) ou numa bancada nova (em Paços de Ferreira), e se permita que os relvados continuem a ser da pré-história do futebol. É uma vergonha que, dos 16 clubes que disputam a Liga, apenas 6 tenham relvados aceitáveis para uma competição profissional. Mas esta é a Liga de Clubes que temos, onde a quantidade de clubes significa votos e os votos significam o poder. E o poder serve, não para melhorar a qualidade do espectáculo, defender o público e o jogo, garantir condições de competitividade assente na qualidade, mas sim e apenas para perpetuar funções. Exemplo disto foi também o que vi em Alvalade: um histórico do futebol português, o Olhanense, reduzido a um amontoado de reformados ou autodesignados futebolistas de vários lados do planeta, alguns deles verdadeiramente incapazes de dar um chuto numa bola. (Um tal de Dionisi, ponta-de-lança italiano daquela agremiação, esse então creio ter sido o pior avançado que alguma vez vi pisar um campo desde o inesquecível Paulinho César, trazido para o FC Porto há anos pelo agora regressado empresário Alexandre Pinto da Costa).

Diga-me lá, Jorge Jesus, como é que um campeonato que tem equipas como a do Olhanense e onde a maioria dos campos é impraticável para jogar futebol, pode ser o quinto ou sexto de maior qualidade por esse mundo fora? Não, à partida, este nunca poderia ser um bom campeonato, mas esta época, particularmente, joga-se aqui o pior futebol de sempre. Ao longo da época já jogada, duvido que tenha chegado a haver uma dúzia de jogos que tenham valido o preço do bilhete. Além dos jogos dos três grandes, que vejo por obrigação de escrita, confesso que nada mais me apetece ver, neste campeonato. E, quando me acontece espreitar, por acaso, jogos como um Belenenses-Académica, deste fim-de-semana, sinto-me quase ofendido como espectador e como amante deste jogo maravilhoso. Relvados vergonhosos, equipas que só não querem é perder, jogadores sem classe, treinadores que temem tudo menos atirarem-se aos árbitros para justificar derrotas. E bancadas vazias, é claro. Acho que isso deveria preocupar alguém.

2- Hoje, por volta do meio-dia e já com um atraso difícil de entender, o Conselho de Disciplina da Federação vai, ao que tudo indica, absolver o FC Porto da acusação de ter deliberadamente atrasado a sua entrada em campo contra o Marítimo para daí extrair uma vantagem na disputa com o Sporting pela continuidade na Taça da Liga. Os indícios do veredicto favorável aos portistas começaram assim que se soube que o CD, ao contrário da Comissão de Inquéritos da Liga, tinha, antes de decidir, feito uma coisa imperiosa: dar ao FC Porto (e ao Sporting e à Liga) a faculdade de fazer prova do que afirmavam. Se o FC Porto sustentava que o atraso se devera a assistência de última hora a Fernando, é óbvio que se impunha então ouvir o jogador, o médico, o massagista e o delegado do clube. Isto, que é a base de qualquer processo sancionatório - dar à defesa a possibilidade de se defender — não ocorreu aos justiceiros da Liga. Para eles, a justificação era mentira, porque sim, e não valia a pena sequer perder tempo com ela. O mesmo julgou o presidente do Sporting, afirmando que tanto era mentira que o Fernando até acabara por alinhar de início - como se isso invalidasse que tivesse estado em dúvida a sua utilização, e como se para nada contasse o facto de ele ter acabado por sair, lesionado, antes do intervalo e tenha estado posteriormente ausente da equipa, por lesão, 15 dias. Permitir que o FC Porto fizesse prova no processo do que afirmara era, para estes moralizadores, uma coisa inadmissível, segundo o conceito de justiça que é o seu. E assim se pronunciou, desde logo, o jornal do Sporting.

Também não lhes ajudou à festa saber-se que os delegados da Liga tinham reportado nada terem registado de anormal no jogo e que, por via disso, um deles tenha recebido um telefonema de quem de direito a ordenar que alterasse o relatório, nele introduzindo um facto falso e no sentido pretendido. O que, de facto, deveria agora ser investigado era apurar quem, como, porquê e a pedido de quem se empenhou tanto, na Liga, para derrotar o FC Porto na secretaria.


3- Ninguém tirará ao Sporting o mérito de, lutando com armas desiguais, fruto da situação de falência iminente a que chegou, tentar entrar na luta de topo e recuperar o lugar que já foi seu no futebol português. Mas, se nisso tem mérito, não tem direito a tratamento de favor. A situação a que o Sporting chegou foi unicamente da sua responsabilidade, da nata de empresários de referência que o dirigiram nos últimos anos e que o conduziram à falência, com o apoio dos sócios, e acumulando asneiras e erros de palmatória, fruto da ignorância e arrogância de "grandes senhores" com que se comportavam.

Alguém já se esqueceu, por exemplo, que há poucos anos atrás o Sporting, já em situação desesperada, apostou a cave na compra de uns vinte jogadores de uma assentada, quase todos banais?

Por isso, se é mais do que legítima e saudável a pretensão do Sporting de regressar lá acima, a vontade de o fazer queimando etapas, pisando princípios e reclamando um estatuto de excepção, não o é. A tentativa de afastar na secretaria o FC Porto da Taça da Liga foi muito feia e ficará registada. Da mesma forma que a ninguém escapou que, antes de começar o jogo da Luz, terça-feira passada, o Sporting andou por ali a cheirar, a vasculhar, a tentar descobrir maneira de ganhar também esse jogo na secretaria, sem sequer o disputar, chegando a dizer que podia «evocar» (!) o artigo tal dos regulamentos para não aparecer a jogo e reclamar vitória. Alguma alma com mais bom senso travou internamente tal tentação, mas não conseguiu evitar a mensagem passada para fora: o novo-Sporting, que quer moralizar o futebol português, parece disposto a tudo para ganhar.

A ideia vem-se instalando e, como as pessoas não são parvas, acabam a dizer o mesmo que disse o Mozer: «Parem de chorar e jogam à bola, pô!»

Abola

11 de fevereiro de 2014

Faz pena ver este Porto

1- Na semana passada, após a derrota no Funchal, Paulo Fonseca queixou-se de que a equipa «entrara mal no jogo» — uma queixa tantas vezes repetida que a única perplexidade levantada é a de entender por que razão, então, ele não corrige as coisas e obriga a equipa a entrar bem nos jogos. Quarta-feira, no jogo da Taça com o Estoril, lá se repetiu a cena e, sem surpresa alguma, o Estoril foi para o intervalo a vencer. E anteontem, recebendo o último da classificação, o FC Porto deu meia partida de avanço ao adversário, só indo a vencer para o intervalo graças a uma grande injustiça e a um daqueles penalties que eu abomino e que raramente marcaria se fosse árbitro.

Nada do que está mal muda, portanto. A gente observa os jogos do FC Porto, vê os mesmos erros e impotência de sempre a serem repetidos, e lá estão o treinador e o seu adjunto sempre agarrados a uns auscultadores, conversando calmamente junto à lateral, com um ar absolutamente perdido, de quem não entende sequer o que se passa e muito menos o que fazer para que se passe diferente. Tenho impressão que, há trinta anos, pelo menos, que não vejo um FC Porto tão mau, tão mal orientado, tão carecido de liderança. Diz o triste Paulo Fonseca que não se podem esquecer as boas exibições já feitas pela equipa: quais? Só me lembro de uma, a primeira da época, na final da Supertaça contra o Guimarães, quando os jogadores ainda não tinham, como se diz, «assimilado» a ausência de ideias do treinador. Depois, disso, houve uns dois jogos com bons momentos mas desfechos infelizes na Liga dos Campeões, e nada mais. O que mantém o FC Porto ainda agarrado à máquina, a quatro pontos do Benfica e nas meias-finais da Taça e da Taça da Liga, são apenas alguns momentos de inspiração individual que se conseguem sobrepor à nulidade do seu futebol colectivo —como o rasgo de Alex Sandro (o melhor profissional da equipa, na relação qualidade/entrega), que permitiu eliminar o Estoril da Taça ao cair do pano. Mas mesmo isso vai-se tomando cada vez mais raro, pois que um dos dons de Paulo Fonseca - e que é sinal infalível de um treinador que não serve - é o de, um por um, ter conseguido pôr todos os jogadores a jogar pior do que sabem. De tal maneira que, neste momento, eu, que acreditei que, apesar da saídas de Moutinho e James, o FC Porto tinha um grande plantel para enfrentar a época, já não sei se fui enganado por optimismo ou se é o fraco rei que faz fraca a forte gente. Sei é que, tirando o caso exemplar de Alex Sandro e o entusiasmo que ainda não esmoreceu de Ricardo Quaresma, tudo o resto, todos os outros, são almas penadas que por ali andam, uma espécie de funcionários públicos do futebol, arrastando as camisolas e as pernas, afastando o público do Dragão, jogando como se tivessem esquecido tudo o que sabiam.

Aquilo que. com infinita generosidade, se poderia chamar o «esquema de jogo» de Paulo Fonseca não passa disto: o Helton repõe a bola em jogo, entregando-a a um dos centrais (o que não é uma jogada isenta de perigos); a bola rola de um central para o outro e regressa ao primeiro; daqui segue para um lateral, que volta a atrasar para um central; deste, segue para o outro lateral que a entrega ao Varela; este, ou perde imediatamente a bola (o mais provável) ou volta a atrasá-la para o lateral, aliviado e contente por se desfazer dela; do lateral, segue então para o Fernando, que tabela com o outro médio defensivo; este, finalmente, arrisca um passe para a frente, falha e segue-se contra-ataque do adversário e pânico na defesa. Diagnóstico de Paulo Fonseca: tivemos muita posse de bola mas dificuldade em penetrar nas linhas adversárias, porque elas estavam muito recuadas.

De facto, só quem lá vai é que saberá dizer porque vai ainda ao Dragão! E vamos ter de aturar isto até final da época ou pior ainda, até que Pinto da Costa se dê por satisfeito - isto é, até que a vontade de mostrar que quem manda ali é ele e só ele seja finalmente ultrapassada pela indisponibilidade de continuar a ver o nosso FC Porto a jogar ao nível de um Paços de Ferreira.

2- Nada me poderia espantar menos do que ver a comissão de inquéritos da Liga defender a punição do FC Porto por se ter atrasado 2.45 minutos com a sua exclusão da Taça da Liga. Há sinais no ar que não enganam e que mostram que o medíocre presidente da Liga, na iminência de poder ser apeado pelo clubes à vista da sua exibida incompetência, se agarrou a uma bóia de salvação chamada Bruno de Carvalho para se tentar manter a flutuar à superfície. Juntos, vão «moralizar o futebol português», inaugurando »uma nova era», como diz o ridículo presidente da AFL.

E também nada me poderia espantar menos do que ler a argumentação jurídica dos serviços da Liga para justificar essa nova era de moralização, que começa por garantir na secretaria o que não se ganhou em campo. Apesar de tudo, havia, reconhecidamente, duas pequenas-enormes dificuldades jurídicas a resolver previamente ao fim desejado: fazer prova do dolo dos portistas; e fazer prova das vantagens competitivas asseguradas por esse dolo. Mesmo sabendo eu de há muito que o futebol português é habitado por uma escola dos piores juristas que este país alguma vez produziu, gente que disfarça a sua ignorância com recurso a uma linguagem pomposa-jurídica de um ridículo mortal, mesmo assim, até para esses crânios jurídicos a tarefa não se antevia fácil.

Mas, qual o quê! O dolo resolveu-se presumindo-o. E com um pormenor delicioso: a presunção baseia-se, não na existência de dados que levem a desconfiar da premeditação da coisa, mas justamente do contrário. Ou seja porque o capitão do FC Porto, em lugar de ter uma desculpa já preparada nas altas instâncias do clube para justificar o atraso, terá antes dito simplesmente ao árbitro «atrasámo-nos», eis a prova cabal, arrasadora, irrebatível, do dolo.

Quanto às vantagens daí extraí das, nem foi necessário aos juristas da Liga perderem tempo a identificá-las, de tal maneira a acharam evidentes por si. De facto, só uma besta é que não percebe que, assim que chegou ao Dragão a notícia do fim do jogo do Sporting, logo Paulo Fonseca de ordem aos seus jogadores para marcarem o golo que faltava — um golpe no qual, aliás, o Marítimo colaborou de boa vontade. É verdade que quatro minutos antes já o FC Porto poderia ter chegado a esse golo se o árbitro tem assinalado um penalty anterior, referido por toda a crítica. E dois minutos antes do terceiro golo portista o próprio Marítimo só não acabou com todas as dúvidas, marcando ele o golo da vitória, porque Fabiano resolveu fazer uma defesa do outro mundo. Mas isso, como se compreende, foram apenas por menores que serviram para melhor disfarçar a golpaça.

Este sábado, o José Eduardo contava aqui a história da amizade que mantém, via mail, com um inglês adepto do Crystal Palace e a quem passou a semana a explicar o último escândalo do futebol português. E diz ele que o inglês ficou espantado e só comentou «essas coisas não se passam aqui!». Intrigado com isto, pus-me em campo e descobri quem era o inglês e perguntei-lhe se a história era verdadeira. Eis o que ele me respondeu:

— Oh, God, Miguel, what a mess, que grande confusão! O que eu disse ao José Eduardo, mas deve ter ficado lost in translation, é que aqui os clubes não se atreveriam a querer ganhar na secretaria o que não tinham ganho em campo com o pretexto de que o rival se atrasou 2.45 minutos a entrar em campo. E que aqui, nem o dolo nem as vantagens ilícitas se presumem: provam-se. Aliás, até lhe perguntei se, sendo assim tão evidente a vantagem de começar a jogar mais tarde que os rivais, por que razão o Sporting, que começou a jogar com a Académica depois de o Porto ter perdido na véspera e de o Benfica ter empatado umas horas antes, não foi capaz de tirar vantagem disso?.

Andam tristes os portistas. Ma sempre nos vamos rindo.