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26 de novembro de 2014

Quem semeia ventos colhe lamentos


5 de agosto de 2014

O circo

1- Como todos os Verões, também este ano o Circo Victor Hugo Cardinali chegou à cidade de Lagos e instalou-se num descampado em frente ao campo do Esperança FC. Aí, soltou, entre grades exteriores, os seus animais de referência; leões, camelos, elefantes, cavalos. Ao ver o Circo Victor Hugo Cardinali, brilhante representante de uma dinastia de artistas de uma actividade já quase em desuso mas que fez felizes gerações de crianças, lembrei-me de outro circo ainda em actividade, mas este sem qualquer brilho, nem préstimo, representando apenas a absoluta falta de vergonha e podridão moral: o circo em que está transformada a Liga de Clubes. Também este circo tem leões, que o controlam e dominam, e outros animais que se imaginam selvagens, mas que não passam de pré-históricos. E palhaços, tristes e variados.

Um dos personagens inenarráveis deste circo é o dr. Carlos Pereira, o insigne presidente da assembleia-geral da agremiação. O tal que inventou um método infalível para evitar que o seu companheiro de assalto, o presidente Mário Figueiredo, fosse destituído pela vontade da grande maioria dos membros da Liga, recusando-se a convocar a assembleia para tal, sob o despudorado argumento de que não concordava com as razões da destituição. E que depois inventou ainda um fabuloso esquema para conseguir reconduzir o dr. Figueiredo no seu tacho (15 000 euros por mês, segundo Martins de Sá, mais alcavalas várias, carro de luxo e motorista): chumbou as candidaturas concorrentes e declarou a dele, todavia declarada irregular pelo CJ da Liga, como a única válida. Foi a tal manobra que deu pretexto ao mais inesquecível discurso alguma vez feito por alguém do futebol - o tal sobre os gazes e outros eflúvios em proveniência da parte terminal do aparelho digestivo — verdadeiro marco da cultura e da história do Sporting Clube de Portugal. Um discurso, note-se, de apoio total ao assalto à Liga por parte desta triste gente.

Não sei por que razão este jornal tem o hábito de, volta e meia, dar a palavra longamente ao infeliz Carlos Pereira, como se ele tivesse alguma coisa de relevante para dizer que não estivesse já plasmado na sua cara e nas suas descaradas manobras. Agora e com a anulação das eleições por ele organizadas, a oportunidade para o ouvir foi a sua inacreditável recondução em funções, fruto dos meandros jurídicos em que o futebol português é fértil e deixando adivinhar, evidentemente, nova chapelada promovida pelos mesmos. Da entrevista, publicada há dias, retive duas coisas: uma, a profundidade dos conhecimentos jurídicos do dr. Carlos Pereira, bem patente na teoria que engendrou excluir a lista de Fernando Seara das eleições anteriores. A lista, diz ele, estava incompleta, não contendo nomes para todos os órgãos sociais - e embora forçado a reconhecer que tal exigência não está contida nos estatutos, ele descobriu que, não sendo tal proibido, também não é expressamente permitido. É assim como se um policia nos estivesse a multar por estacionamento proibido num local sem qualquer indicação de tal e, perante os nossos protestos, ele explicasse: «De facto, não está proibido, mas também não está permitido». Em que Faculdade de Direito terá o homem sacado o seu canudo?

Mas o mais importante que retive da entrevista com este preclaro jurista foi a sua justificação última para todas batotas que promoveu e levou a cabo na Liga, a razão última para manter em funções o dr. Mário Figueiredo e a sua tropa de assalto. Após jurar que há-de morrer a ser do Benfica e a «lutar contra as trevas», ele explica em que consiste a sua cruzada: evitar que Benfica e Sporting «fiquem mais dez anos sem ganhar nada». Ou seja, preto no branco: ele e os outros estão lá, agarrados aos lugares, com recurso a todas as golpaças possíveis e imaginárias para beneficiarem o Benfica e o Sporting, evitando que o FC Porto possa continuar a ganhar. Eu já o sabia, mas dito por um deles tudo fica mais claro. Assim como fica mais clara a afirmação da direcção do Sporting, depois de as eleições por si cozinhadas terem sido anuladas no CJ, de que «continuará a pugnar pela transparência e pela verdade desportiva». De facto, ultrapassaram de há muito o limiar da sem-vergonha e nem se preocupam já em disfarçar. O que não diriam se o FC Porto tivesse tomado assim de assalto a Liga de Clubes, se os seus homens de mão tivessem recorrido a todo o tipo de trapaças para se agarrarem ao poder contra a vontade esmagadora dos outros clubes e se ainda, por absoluta incompetência, tivessem conduzido a Liga à ruína e à paralisação e, no fim de tudo, ainda se louvassem de estar a travar uma cruzada para evitar que Benfica e Sporting pudessem ganhar?


2- Em Liverpool, contra o Everton, 5º classificado da Liga Inglesa, vi um FC Porto que dominou por completo o jogo e o adversário, de princípio a fim. Mas que em meia parte em estilo espanhol, digamos assim, sem ponta-de-lança e com três avançados flutuantes, controlou todo o jogo mas nem cheirou a baliza, num futebol tão seguro quanto estéril e aborrecido. E uma segunda parte em que já com Jackson Martinez, de regresso ao seu estilo clássico de jogo, prometeu bem mais. Em termos individuais, de trás para a frente, espero que o erro tremendo de Fabiano no golo dos ingleses lhe tenha servido de lição para toda a época, pois que, na hora da sucessão de Helton, se há coisa que dispensamos outra vez é guarda-redes que comprometem com erros impensáveis nos momentos mais importantes. Nas laterais, Danilo tem de aprender a centrar em condições para aproveitar a facilidade com que se integra no ataque e Alex Sandro não terá nada a temer da concorrência do último espanhol desembarcado no Dragão - José Angel — cujos 15 minutos de estreia foram assustadores. Martins Indi deu boas indicações, mais lento e menos espectacular que Mangala, mas mais posicional e calmo, e Maicon mostrou que é agora indispensável. Na posição 6, não há, neste momento, concorrência à altura dos surpreendentes desempenhos do miúdo Bruno Neves — ainda para mais, português e da formação. No meio campo criativo, grande destaque para Brahimi e Oliver Torres, numa zona onde existem ainda Quintero, Carlos Eduardo, Herrera e Casimiro (que também é 6): foi fome que deu em abundância. Nas alas,, nova desilusão do tão celebrado Adrian López, boas indicações de Quaresma e Tello, e ainda sobram Kelvin e Ricardo. Na frente, como já foi escrito, Jackson surge como uma das principais aquisições desde que daqui até 31 de Agosto não se consume uma desagradável reviravolta.

Enfim, parece faltar apenas uma alternativa a Jackson Martinéz para que Lopetegui se possa dar por imensamente satisfeito com a equipa que lhe puseram à disposição. Nem mesmo a continuação da «transparência» e da «verdade desportiva», em versão lisboeta, lhe poderá servir de salvaguarda para uma época de insucesso. Que todos os portistas acreditam que não acontecerá.

29 de julho de 2014

Los nuevos tiempos de Porto

1- Julen Lopetegui parece-me um tipo simpático e dotado de senso comum, o que já não é pouco, pois nem sempre acontece com os treinadores. Espero - o que já seria muito - que ele não pertença àquela categoria de treinadores que conseguem avaliar o jogo e os jogadores ao contrário do que o senso comum e olhar da bancada vê. Estou cansado de treinadores que não sabem ou não querem distinguir um bom jogador de um jogador medíocre e que confundem um mau desempenho com um desempenho aceitável. Mas Lopetegui, ao chegar ao FC Porto (que não é propriamente um clube menor e habituado às derrotas), assumiu um imenso risco, pois que, como escreveu alguém há dias, ele contrariou o princípio contratual entre um treinador e um clube. O princípio estabelece que um treinador chega, chega para treinar a equipa que existe, e não o contrário: sem prejuízo de, obviamente, o treinador poder desejar e pedir reforços que lhe são ou não entregues, a regra é que ele veio para treinar aquela equipa e não outra, a inventar. Mas é isso mesmo que, aparentemente, Lopetegui está a fazer no FC Porto: inventar uma nova equipa para treinar.

A ideia não deixa de ser aliciante (e por isso o Dragão encheu-se para ver o jogo de apresentação da nova equipa de Lopetegui), mas contém riscos e suscita legítimas questões: questões óbvias do ponto de vista financeiro e questões pertinentes do ponto de vista desportivo. De três em três dias, chega ao FC Porto, por indicação de Lopetegui, um novo jogador que, ou é espanhol, ou vem de Espanha. E isso leva-nos forçosamente a perguntar: seriam precisos assim tantos novos jogadores? Não vamos cair, uma vez mais, num excesso de plantel que afasta jogadores promissores que não chegam a ter tempo de evoluir? Não vamos, uma vez mais e com a excepção aparente do jovem Rúben Neve, desprezar toda a formação das escolas do clube? Não vamos deitar por terra todo o trabalho de scouting do clube, como se, de repente, só houvesse jogadores apetecíveis em terras de Espanha? Não vamos transformar uma equipa de raiz (vagamente, é certo) portuguesa numa equipa de matriz exclusivamente espanhola? E será que o novo treinador, querendo introduzir na equipa as boas soluções da recente escola espanhola, só o poderá fazer com jogadores formados em Espanha?

Bom, não sei, sei que são perguntas que fatalmente me ocorrem ao espírito, e embora deva confessar que, nesta matéria das estonteantes pré-épocas de intermináveis negócios, eu sou, por natureza, um conservador: para mim, o normal numa equipa habituada a ganhar, é comprar, no início de cada época, não mais do que quatro ou cinco jogadores, dos quais dois para entrarem de caras no onze principal; tentar, correspondentemente, livrar-se de outros 4/5 jogadores que já tenham tido tempo suficiente para demonstrar que não evoluem o necessário; e promover ao plantei principal 2/3 jogadores vindos dos juniores ou da equipa B. Ou seja, garantir, de ano para ano, uma matriz fundacional da equipa, que assegure a continuidade, com renovação parcial, de uma escola de trabalho mantida e aperfeiçoada ao longo dos tempos. O que agora se está a assistir no FC Porto é o oposto disso: é e revolução integral ou quase. Como disse, e lembrando a pobreza exibicional e competitiva da equipa desde a saída de Villas Boas, a mudança de agulha promovida pelo novo treinador não deixa de ser aliciante - desde que resulte.

Enquanto muitas caras novas entram, alguns vão sair. Entre os nomes apontados ou já confirmados, devo dizer que não tenho qualquer objecção a opor e que eles me parecem, aliás, confirmar o tal critério de bom-senso que julgo adivinhar em Lopetegui. Defour e Varela, os meus leitores sabem que não morro de amores por eles e que será sem pena alguma que os verei partir para novos horizontes onde ambos estimam vir a ser melhor apreciados. Josué e Abdoulaye são dois jogadores que verei partir com pena, mas apenas com pena de não terem conseguido confirmar as esperanças neles depositadas e aproveitar as oportunidades de que gozaram. Licá foi sempre um erro de casting e Ghilas nunca conseguiu demonstrar, nem de perto nem de longe, porque razão valeu há um ano os exorbitantes 3,8 milhões que a SAD do F.C. Porto pagou por metade do seu passe - e cuja incredulidade, por mim aqui manifestada, me valeu, aliás, o processo que a SAD me interpôs e que decorre em tribunal. E onde eu aguardo com curiosidade para ver algum responsável da SAD explicar porque se oferece 3,8 milhões por metade de um passe de um jogador cuja cláusula de rescisão era de 2 milhões e que, passado um ano e 4 golos marcados como goleador, é dispensado. Mas isso são contas de outro foro e de cujo desfecho a seu tempo darei notícias.

Do pouco que vi dos desafios de pré-época, não tiro, para já, nenhumas conclusões; nem boas nem más, é para isso que servem os jogos de pré-época. Não tiro conclusões, nem dos jogos do meu clube, nem dos jogos dos seus rivais: não embandeiro era arco com as notícias das dificuldades que Jorge Jesus está a ter para reerguer uma equipa desfeita nem levo a sério a euforia dos adeptos e alguns responsáveis sportinguistas (não o seu treinador) com os bons resultados dos jogos de preparação. E até sorrio quando leio que um novo jogador sportinguista, estrangeiro e sem nada conhecer dos rivais e do campeonato português, apresenta o Sporting como o principal candidato ao título: eis o espírito sportinguista de sempre, o que eu mais gosto. No futebol como no resto, o que eu mais temo são os adversários silenciosos, que trabalham na sombra e a longo prazo, sabendo que não interessa começar bem para acabar mal; já os outros, os que acham que quinze dias de trabalho já chegam para se imaginarem campeões, esses, a gente come-os ao pequeno-almoço.

Não dou, portanto, quase nenhuma importância ao desempenho portista nesta pré-época, sobretudo nas mãos de um treinador novo e vindo de fora, com uma equipa quase toda nova e vinda de fora. E prefiro ver jogadores cansados agora, porque estão a ganhar envergadura física para uma época inteira, do que vê-los cansados em Dezembro ou Março, quando tudo se decide. Fico contente por saber que, em teoria, pelo menos, o FC Porto se reforçou onde mais devia - no meio-campo criativo, com jogadores como Óliver e Brahimi, a juntar a Quintero, Herrera e Carlos Eduardo - e que dispõe, à partida, de duas duplas de extremos que permitem sonhar alto - Quaresma e Ricardo, a acrescentar a Adrián López e Tello. Falta, e não é pouco, ver resolvida a questão do ponta-de-lança: sai ou fica Jackson? Se sair, arranja-se alguém que dê o mínimo de garantias para lugar tão importante? Ou, correndo todos os riscos inerentes, Lopetegui quererá experimentar a alternativa de um onze sem ponta-de-lança natural, ao estilo espanhol?

2- Sempre achei que um bom ambiente de trabalho, um escritório ou umas instalações bonitas, podem fazer muito pela produtividade de quem trabalha. Foi assim com grande satisfação que vi Óliver Torres, novo reforço portista, afirmar-se feliz por se estrear com a camisola azul e branca num estádio tão bonito como o Dragão. Porque é, de facto, o estádio mais bonito que eu já vi e porque é bom ver um jogador de futebol que liga importância a isso e não se limita a debitar banalidades, como se todo o mundo que o rodeia lhe fosse indiferente.
a abola

22 de julho de 2014

Business as usual

1- Guerras de empresários, cenas de pancadaria, mais suspeitas sobre os fundos de jogadores, negócios de milhões, falências à vista: bem-vindos a mais uma época do futebol português, em tudo semelhante às anteriores.

Comecemos pela anunciada iminente falência da própria Liga de Clubes, que obrigou o seu presidente, o notável Mário Figueiredo, a ter de fazer uma insólita declaração de que os campeonatos não estavam em risco. Porém, ao que parece, tal declaração não terá tranquilizado ninguém, pois que, como aqui se explicava há dias, consta que, enquanto o seu presidente continua a auferir o seu generoso salário e a usufruir de motorista em carro topo de gama, os funcionários da Liga já não receberão salários e os fornecedores não são pagos — todos à espera que o Sr. Figueiredo produza a montanha de dinheiro que prometeu sacar à Olivedesportos pelas transmissões televisivas, e as sim sem mais. Este homem, passe o seu descaramento, é, de facto, um fenómeno: deve ser o único presidente de uma qualquer instituição planetária que conseguiu manter-se em funções porque o seu presidente da Assembleia Geral recusou-se sistematicamente a convocar uma assembleia para o destituir, invocando sucessivos pretextos jurídicos, até terminar num deveras inatacável: ele não concordava com as razões para a destituição e era ele, não os sócios, que tinha de concordar. Depois, ainda teve o topete de se reapresentar a eleições e, sempre contando com a mesma ajuda, inventou um esquema infalível para evitar a sua mais do que certa derrota, qual foi o de declarar irregulares todas as candidaturas menos a sua. E, assim reeleito com 25% dos votos, incluindo o do Sporting, cujo presidente viu nele o verdadeiro símbolo da transparência no futebol, o papel higiénico capaz de limpar as emanações escatológicas do orifício anal (conforme explicou num discurso que para sempre marcará a história do nosso futebol e dos seus dirigente?), o Sr. Mário Figueiredo aí está, firme como uma rocha, a fazer da Liga de Clubes um cadáver adiado, cuja única razão de ser reduz-se a manter o seu próprio tacho e fazer os favores necessários aos clubes que o apoiarem, com o Sporting à cabeça e o Benfica na expectativa. Anuncia-se um desastre inaudito: talvez a suspensão ou anulação do campeonato, aí por alturas do Natal, quando se perceber que o Sporting não vai ser campeão. Seria mais uma fórmula inédita de garantir a transparência.

2- Lá pela minha terra, no meu clube, sucedem-se as revoadas de contratações que tanto animam e agitam os dirigentes nesta época do ano. Desta vez, parece que a animação é maior do que nunca, com cenas de bofetadas, de insultos e de chega-para lá entre empresários e dirigentes. Segundo relatam os jornais, guerra intestina estará a ser ganha pelo ex-filho pródigo do presidente, regressado em força e em grande estilo para prestar ao clube os relevantes serviços que os sócios tão bem conhecem do passado. Mas não hei-de morrer sem ver o meu clube ser dirigido por gente que nada queira ganhar com ele.

Do novo treinador e dos reforços, nada posso dizer, por enquanto. A verdade é que não conheço um nem os outros. Gosto que a escolha tenha recaído num estrangeiro, mas, como todos, sinto alguma apreensão por se tratar de alguém que vai aprender agora a treinar um clube, e não já selecções jovens. Quanto aos reforços, dizem-me que são bons e eu quero crer que sim, mas também sinto alguma apreensão, pela sustentabilidade dos investimentos feitos num clube em pré-falência, como todos, e que, mais uma vez, dá indicações de ir desprezar as escolas de formação do clube, a experiência da Equipa B e o mais que defunto Projecto Dragon Force. Os clubes estão cheios de boas intenções que, na época dos negócios, são rapidamente esquecidas.

Neste momento, e sem ainda ter visto nada, o que tenho de mais sólido e esperançoso, a nível de reforço da época portista, é o desmembrar da grande equipa que o Benfica tinha e uma vaga, ténue possibilidade, (mas em que francamente não acredito) da venda de Varela e Defour (este último, com uma única aparição no Mundial, onde revelou o seu ponto mais forte, já conhecido dos portistas, que é a inteligência de se fazer expulsar ainda na primeira parte dos jogos mais importantes). De resto, duas certezas: uma, a de a língua oficial do clube, este ano, é o espanhol; e outra, a de que não vai ser fácil preencher a quota de jogadores formados no clube, para efeitos de inscrição na Champions. Aliás, a entrada no quadro final desta competição, ultrapassando a pré-eliminatória, vai ser, desde logo, o primeiro objectivo a atingir na época, sob pena de as grandes expectativas que se estão a criar levarem logo um forte e traumático rombo inicial.

3- Grande parte destes constantes negócios de compra e venda de jogadores, sobretudo nos grandes, passa por essa entidade misteriosa que são os fundos de jogadores. Anteontem, o Diário de Notícias trazia uma longa investigação sobre o assunto, mas que, infelizmente, não conseguia avançar muito no esclarecimento. Fiquei a saber o que já sabia; que estão proibidos em Inglaterra e em França, que a UEFA os quer banir mas a FIFA não. Que os fundos são essenciais para que os grandes clubes portugueses possam competir a alto nível, obtendo co-financiamento na compra de jogadores de qualidade, mas que a sua opacidade e o cruzamento entre os investidores dos fundos, os empresários de jogadores e, possivelmente até, dirigentes dos clubes, é fonte de toda a ordem de suspeitas e prejuízo na formação de jogadores portugueses. Porque o negócio dos fundos exige uma alta rotatividade de jogadores, constantes negócios de compra e venda de estrangeiros, prejudicando seriamente a formação e os atletas portugueses. Entre estes interesses opostos entre um mal necessário e outro, a única coisa que parece evidente é a necessidade de que os fundos sejam regulamentados e abertos. Nomeadamente, que se saiba quem são os seus detentores e principais investidores e que estejam disponíveis a quem quer que queira investir neste negócio. De outro modo, tudo é demasiado opaco e nebuloso, passando-se em sociedades off-shore, que não se sabe a quem pertencem, logo que interesses servem realmente. O futebol é cada vez mais um negócio multinacional, em que muitas empresas e muita gente ganha fortunas. Mas, curiosamente, há uma entidade que raramente ganha a prazo, que é quem paga a fatia de leão dos custos e à roda de quem todos gravitam: os clubes. E o que é estranho é que, enquanto cada vez mais dinheiro circula e mais gente enriquece, do Real Madrid ao Beira-Mar, os clubes têm quase todos em comum uma coisa: estarem tecnicamente falidos. Dá que pensar...

4- Muito cautelosas e avisadas as declarações iniciais dos treinadores dos três principais e crónicos candidatos ao título. Julian Lopetegui mostrando-se satisfeito com a evolução dos trabalhos e com a equipa que terá ao dispor — grande parte dela escolhida a dedo por si. Jorge Jesus assistindo, sem angústias aparentes, ao desmoronar da equipa que na época passada tinha ao dispor, dizendo que o Benfica está a pagar o preço do sucesso. E Marco Silva recusando, com a elegância que sempre mostrou, o favoritismo que os dirigentes do clube querem atribuir ao Sporting — como de costume, sem se preocuparem em levar em conta o que os rivais possam fazer. Oxalá todos mantenham a mesma contenção ao longo da época, a benefício de uma disputa sem golpes baixos, imune à histeria e desejo de protagonismo dos dirigentes.

Abola

15 de julho de 2014

O que é que a Alemanha têm?

1- Não é só no futebol que no fim ganham os alemães. É no futebol, no atletismo, no automobilismo, no andebol, na equitação, no ski. É no desporto, na música, na literatura, na arquitectura, na construção de carros, de electrodomésticos, de máquinas industriais, etc, etc. Podemos gostar ou não, podemos até desdenhar, mas a verdade é esta: no fim, ganham os alemães. E ganham, porquê? Porque trabalham mais, porque se focam nos objectivos, porque valorizam os resultados. Se alguém quiser entender por que razão a Alemanha está farta dos países do sul da Europa, ponha-se na pele de um alemão. E compare a selecção alemã, campeã do mundo, com, por exemplo, a portuguesa.

A selecção alemã que foi ao Brasil não tinha vedetas nem pequenas, nem médias, nem grandes. Não se davam ares de vedetas, nem fora nem dentro do campo. Umas vezes, esmagaram e fascinaram com o seu futebol de carrossel demolidor, outras vezes — como na final — correram, lutaram, sofreram, sangraram e, no fim, ganharam. Nenhum jogador quis dar nas vistas por outra razão que não fosse jogar futebol. Ali não havia ninguém com tatuagens, com penteados ridículos, com figurinos tipo Raul Meireles, com brincos nas orelhas, com pose de deuses inacessíveis de auscultadores enfiados nos ouvidos, fingindo-se alheios a tudo o que os rodeava, como se fossem superiores à gente comum. Não, os alemães passaram pelo Brasil confraternizando, querendo ver e saber, curiosos e contentes por ali estarem — tão diferentes dos nossos heróis do mar, fechados para o mundo em hotéis-fortaleza, onde só entravam cabeleireiros, tatuadores e agentes. Os alemães não passaram as conferências de imprensa a debitar lugares comuns e frases feitas sem conteúdo, próprias de quem jamais foi visto com um livro, uma revista ou um jornal na mão e passa os tempos livres a debitar selfies e banalidades nas redes sociais, imaginando-se o contra do mundo. Os alemães mandaram ao Brasil uma verdadeira embaixada, para servir o futebol e honrar o seu país, enquanto nós mandámos um grupo de homens mimados e convencidos, comandados por dirigentes que não lhes souberam exigir que estivessem, em todos os aspectos, à altura da responsabilidade. Mas, como em tudo o resto que fazem, os alemães também mandaram um grupo de jogadores que se portaram como verdadeiros profissionais, que trabalharam e treinaram no duro, enquanto que nós mandámos uma excursão de rapazes que se convenceram que os penteados e as tatuagens, por si só, conseguem ganhar jogos ou então ficar na fotografia que parece bastar-lhes. Não é por acaso que o campeonato alemão tem estádios cheios e que o público dá por bem empregue o seu tempo e o seu dinheiro, enquanto que o principal do nosso campeonato é jogado em estádios vazios e vivido sobretudo nos programas televisivos dos dias seguintes, a discutir se foi bola na mão ou mão na bola ou se a entrada de uma equipa em campo 2 minutos e 45 segundos depois da hora marcada condicionou ou não decisivamente o resultado de outro jogo. Nós discutimos, eles jogam. Nós tatuamos, eles treinam. Nós penteamos, eles correm. Nós somos recebidos e pré-condecorados pelo Presidente antes de começar, eles são apoiados na bancada pela chanceler quando chegam à final. Nós somos heróis antes de partir, eles são vencedores depois de ganharem. Não é por acaso que, desde que me lembro e tanto quanto me lembro, só dois jogadores portugueses (Paulo Sousa e Petit) jogaram no campeonato alemão e só um jogador alemão jogou no campeonato português (Enke).

Não perguntem o que é que os alemães têm. É toda uma sociedade fundada no trabalho, no mérito, na responsabilidade, nos resultados. Goste-se ou não, isto não tem nada a ver com o fado. É outra cultura, é outra coisa.

2- Agora, todos batem no ceguinho do Scolari. Agora, até se atrevem a passar finalmente o registo da célebre conferência de imprensa de Scolari, em 2004, em pleno Europeu, em que ele insulta ordinariamente uma jornalista, sem que os seus colegas reajam — e cujas imagens ou relato textual eu jamais tinha visto. Agora, começam a perceber que Scolari não nos levou ao 2º lugar no Euro-2004; ele perdeu, em casa, um Euro imperdível. Agora, percebem que os seus sucessivos falhanços posteriores — a liquidar o Chelsea de Mourinho ou a descer o Palmeiras à segunda divisão — não foram acidentes de percurso e que ser campeão do mundo com o Brasil em 2002 não era assim tão difícil. Agora, começam a desconfiar que a sua célebre arte da motivação não era mais do que um cocktail de sorte, Senhora do Caravaggio, conversa mole para fracos espíritos e patriotismo de pacotilha — que ele aproveitou, aqui e no Brasil, como uma excelente oportunidade para negócios privados de publicidade. Mas que, no fundamental, o homem limita-se a escolher um grupo de discípulos obedientes a quem prega os seus sermões de psicologia barata, convence-os de que a sua técnica é genial (e que, em absoluto, dispensa o talento individual deles) e que, quando ganha, tudo se deve ao grande Felipão. Mas quando, na hora de verdade, tudo corre mal — quando consegue perder duas vezes com a mesma e indigente Grécia no Euro-2004 ou quando encaixa 7-1 da Alemanha neste Mundial — ele puxa das estatísticas que lhe convêm, esquecendo as outras, e declara, cheio de lábia, que tudo o que de mal lhe aconteceu nos últimos anos foram dez minutos contra a Alemanha.

Na qualidade de quem, antes mesmo de começar o Euro-2004, logo embirrou com o homem, desconfiou do treinador e o escreveu, de quem foi, aliás, pessoalmente ofendido por ele, de quem várias vezes teve de explicar no Brasil porque razão o achava um vendedor de banha da cobra, de quem teve a sorte de aqui publicar na manhã do jogo contra a Alemanha que o Brasil de Scolari não jogava nada e que nessa noite iríamos ver o que valia contra uma equipa a sério, confesso que a prova dos nove me soube deliciosamente. Os 7-1 contra a Alemanha e os 3-0 contra a Holanda souberam-me que nem doce de amoras. Só tenho pena que o Brasil, o Brasil inteiro, tenha pago este preço pela incompetência, a arrogância e a pesporrência do Grande Felipão. Um treinador que consegue transformar o Thiago Silva num passador, o David Luiz num bebé chorão, o Hulk numa nulidade e o Oscar numa anedota, e que vive à espera que o Neymar lhe resolva o assunto é, obviamente, um incompetente. Mas o burro é ele? Não, o burro é a imprensa que sempre andou com ele nas palminhas, por medo e por reverência.

Três quartos dos seleccionadores do Mundial despediram-se após este. Uns porque consideraram a sua missão ou o seu ciclo cumpridos, outros porque falharam os objectivos. Entre estes últimos, Scolari e Paulo Bento são dois que não vêem motivos para se irem. Um, porque considera que só falhou um jogo em que as coisas correram mal, outro porque acha que só falhou dez minutos de um jogo. Não é a única parecença entre eles, mas é eloquente: as razões porque falharam são as mesmíssimas razões pelas quais só eles não percebem que falharam e que nenhum futuro diferente se fará com eles.

3- Até entrar nas eliminatórias, este foi o melhor Mundial de que me lembro. Mas, depois, tudo mudou. Como sempre disse, um Mundial jogado no final da época europeia, com 32 equipas, em que os finalistas têm de disputar 7 jogos de 4 em 4 dias, serve ao negócio ganancioso da FIFA, mas não ao futebol. O Alemanha-Brasil foi a excepção, um jogo que sai uma vez num século; o normal é o Argentina Holanda das meias ou o Alemanha- Argentina da final: dois jogos penosos, sofridos, soporíferos. O Mundial do Brasil merecia um melhor final.

Abola

2 de julho de 2014

Nada de importante aconteceu no Brasil

A avaliar pelas reacções dos dirigentes federativos, do seleccionador Paulo Bento e de vários dos seus colegas de profissão, nada de importante aconteceu no Brasil. Apenas uma competição que não nos correu bem, mas que já lá vai — agora é preciso é concentrarmo-nos no Euro-2016. Permito-me discordar. Acho que a nossa participação foi má de mais e levantou questões que devem ser discutidas e devem ter consequências. Eis algumas dessas questões:

A BASE DE RECRUTAMENTO

Por mais que se critiquem as opções e exclusões de Paulo Bento, a verdade é que não havia muito mais por onde escolher. Esta selecção, da qual já disse várias vezes que é das mais fracas de que me lembro, não tinha muito mais alternativas. Sendo certo que Portugal é um pais de futebol, onde sempre nasceram e cresceram grandes jogadores, isto levanta um óbvio problema de base de recrutamento sobre o qual é necessário meditar. Será possível continuar com uma política de formação que, nas camadas jovens, já tem um excesso evidente de estrangeiros? Não será necessário e possível limitar o número destes nos escalões até aos sub-21, pelo menos?

AS ESCOLHAS

Porém, e sem me desdizer, julgo que a selecção eleita por Paulo Bento reflecte a obstinada teimosia e conservadorismo dele. Nomes como os de Quaresma, Danny ou Bebé, para só falar da frente de ataque, tinham lugar no avião para o Brasil. Mas é sabido que Bento escolhe segundo critérios de fidelidade pessoal e não de qualidade ou momento que os jogadores atravessam. Só isso justifica a aposta inamovível em jogadores claramente fora de prazo ou de forma (e até mesmo de condição física) e cujos nomes, por delicadeza, me abstenho de enumerar. A imensa responsabilidade que recai sobre os ombros do seleccionador foi usada por Paulo Bento para recompensar e garantir lealdades, em interesse próprio. É a escola de Scolari, mas com a enorme diferença de a base de recrutamento estar longe de ser comparável. Aliás, por aquilo que sigo nos jornais, raramente me dou conta de que o seleccionador acompanhe ao vivo outros jogos que não os dos grandes (onde 90% dos jogadores são estrangeiros), que frequente jogos dos outros clubes, das camadas jovens ou que, menos ainda, acompanhe o desempenho dos jogadores portugueses a actuar no estrangeiro — em Itália, Inglaterra, Rússia, Chipre, Turquia, Espanha, etc. A sua selecção parece feita desde sempre e para sempre.

A PREPARAÇÃO

Foi verdadeiramente chocante constatar até que ponto a selecção levada ao Brasil estava impreparada para o Mundial, sob qualquer ponto de vista: físico, anímico, emocional, táctico, estratégico. Uma armada completamente à deriva, que não parecia saber ao que ia. Como, que se saiba, tudo foi disponibilizado ao seleccionador, em termos de meios, de conforto e de luxos, para que tal não sucedesse, chegando mesmo a renovar-se o seu contrato antes do final do prazo e do Mundial para que nada o perturbasse, não há, à vista, desculpa alguma para o rotundo falhanço. E claro que nem tudo será da responsabilidade dele, mas uma vez que nada foi até agora convenientemente esclarecido, sobram para cima do comandante todas as responsabilidades.

0 PLANEAMENTO

Creio ter sido o primeiro, ou dos primeiros, a levantar a questão da localização do quartel-general da Selecção em Campinas, obrigando a mais horas de voo do que as necessárias em função dos locais dos jogos e fazendo com que os jogadores treinassem em condições bem diferentes daquelas que já se sabia que iriam encontrar em Manaus e Salvador. Isso, mais a passagem prévia pela costa leste dos Estados Unidos, cuja lógica de todo me escapou, nunca foram esclarecidas e ninguém pode saber até que ponto contribuíram ou não para a diferença abissal de preparação com que nos apresentámos no primeiro jogo, relativamente aos alemães.

A CONDIÇÃO FÍSICA

É absolutamente consensual entre toda a gente que a equipa portuguesa chegou ao Mundial num lastimável estado físico, que o número mais do que anormal de lesões e a moleza mostrada em campo exuberantemente atestaram. Se bem percebi, o médico da Selecção veio dizer que já em Janeiro terá apresentado um relatório onde se preveria a possibilidade de tal cenário. Parece-me cedo de mais, a cinco meses de distância, mas o que não há dúvida é que um conjunto de jogadores a rebentar pelas costuras ou a arrastar-se em campo só pode resultar de todos os factores envolvidos na preparação física: a parte médica, a parte de recuperação, a parte dos treinos. E não é simplesmente aceitável que isto fique por esclarecer e que daqui não se extraiam as consequências que se impõem.

OS ONZES

De jogo para jogo, Paulo Bento só mexeu quando algum jogador rasgava ou era castigado. Fosse qual fosse o adversário, o resultado procurado, as condições de clima ou o estado físico dos jogadores, o seu onze já estava determinado na sua cabeça desde que em Novembro passado garantimos o bilhete para o Brasil. Acabou por utilizar quase todos os jogadores que levou, mas apenas porque circunstâncias alheias à sua vontade o impuseram. Paulo Bento não é conservador: conservadora era a minha avó. O que ele é é um homem de ideias fixas, confiante que a realidade acabará sempre por se render a elas. Viu-se...

0 FUTEBOL JOGADO

Julgo que teremos dividido com a Grécia o pior futebol visto neste Mundial, em que se tem visto tão bom futebol - jogado até por selecções que estavam 20 ou 30 lugares abaixo de nós no ranking da FIFA. Mas, mesmo assim, a Grécia quase que chegava aos quartos, enquanto que nós nunca demos a sensação de poder ir além do que fomos, excepto para aqueles espíritos patriótico-optimistas que acham que basta querer e acreditar para, quem sabe até, chegar ao próprio título. Não se viu nada em campo que pudesse alimentar sombra de tais expectativas - nem sequer contra a equipa de amotinados e desinteressados do Gana. E nem ao menos pudemos queixar-nos da sorte: basta constatar que, dos quatro golos marcados por Portugal, três foram literalmente oferecidos pelos adversários. Segundo depreendi, o futebol planeado pela nossa selecção resumia-se à esperança de que o Cristiano Ronaldo que resolvera o play-off contra a Suécia resolvesse também tudo o resto. Mas não só não havia plano-B, como nem sequer havia equipa para o plano-A.

A EMBAIXADA AO BRASIL

Podíamos ter feito fraca figura em campo, mas boa figura fora dele. Era nossa estrita obrigação, disputando um Mundial num país descoberto por nós, onde se fala a nossa língua e onde, para mais, dispusemos do apoio permanente dos brasileiros. Mas a selecção portuguesa passou pelo Brasil numa postura de vedetas inacessíveis, fechados numa fortaleza onde os únicos que entraram de fora foram dois cabeleireiros. Outras selecções treinaram na praia com o povo a vê-los, visitaram favelas, confraternizaram com os índios e populações locais. A nossa, não: nem uma visita a um centro português, a uma escola, a uma instituição qualquer. Nem um minuto de paragem para falar com as pessoas, nenhuma declaração, fosse de dirigentes, treinador ou jogadores, que, de alguma maneira agradecesse ao Brasil o Mundial e o apoio dado, ou até revelando ao menos que sabiam em que pais estavam - coisa que não tenho como certa.

0 FUTURO

Paulo Bento já revelou não estar disponível para a renovação radical que se impõe fazer na Selecção — não apenas nos nomes, mas no seu próprio funcionamento. Para ele, tudo terá que ser muito lentamente e com o critério da «gratidão» a sobrepor-se a tudo o resto. Ou seja. é mais importante não melindrar os seus, do que renovar a Selecção. Aliás, afastou desde logo a ideia de começar por renovar o seu próprio cargo. Assim sendo, pelo menos, a Federação sabe com o que conta. E nós também. Afinal, foi tudo a feijões.

25 de junho de 2014

Bye- Bye, Brasil

 É segunda-feira do segundo dia de Verão e chove a céu aberto em Lisboa. Junte-se a chuva no Verão à crise e esta à ressaca da madrugada anterior passada a ver a Selecção jogar em Manaus, e temos um diagnóstico infalível de uma nação em profundo estado de depressão. Por mim, que nunca fui dado à histeria patriótica causada pela Selecção nem à veneração daquele grupo de «novos conquistadores» e novos «heróis do mar», que vejo mais facilmente como um grupo de vedetas mimadas, preocupados com penteados, tatuagens, carros e nada mais que se saiba, a queda em desgraça da Selecção nem sequer é motivo de depressão. Seria, se eu apostasse nela as minhas últimas fichas de uma hipótese alternativa de ver o céu azul. Mas, não é o caso: como aqui escrevi, ainda durante a fase de qualificação, esta é uma das Selecções mais fracas de que me lembro. Tem três bons jogadores — Fábio Coentrão, Cristiano e João Moutinho — e os outros são apenas razoáveis, ocasionalmente bons. Estamos no Mundial apenas porque Cristiano marcou 4 golos em dois jogos do play-off e nos comprou o bilhete. Mas agora, com ele e Moutinho em baixa de forma, com Fábio Coentrão arrumado no primeiro jogo, a equipa de Paulo Bento, como o mostrou, não é sequer capaz de levar de vencida uma equipa que não vale nada, como a americana, apesar de ter tido a sorte de marcar um golo caído do céu a abrir o jogo e outro no último de 5 minutos de descontos. Ao contrário do que as vozes habituais puseram a circular, os Estados Unidos não são nenhuma Selecção de atletas, como já se tinha visto contra o Gana e voltou a ver-se anteontem. A obsessão em apresentar todos os adversários como difíceis, até um Uzbequistão, leva à criação de uma cultura de pré-desculpabilização que é o fermento ideal para um equipa de vencidos. Isso e os equívocos de um seleccionador que, em lugar de meter os melhores do momento em cada momento, prefere irritar-se porque um jornal adivinhou a equipa que iria jogar a contra a Alemanha como se houvesse alguma dificuldade em adivinhá-la, visto ser sempre a mesma.

Mas não é esta ainda a altura de fazer o balanço da nossa prestação no Brasil — não vá eu agoirar ou ser acusado de falta de patriotismo. É certo que não acredito em milagres, tanto mais que, pelo que vi até aqui, o Gana é bem melhor equipa do que Portugal. Vamos, pois, fingir acreditar em milagres. Até lá, as razões do nosso mais que provável falhanço requerem uma análise mais pensada e menos a quente como tantas que já vi serem feitas menos de 24 horas após Manaus, e, algumas até, transformando em ferozes críticos quem antes era cordato apoiante de tudo. Alguns dos que agora apressadamente vão de bota a baixo sem freio, eram dos que antes sugeriam como traidores à Pátria quem ousava duvidar do que quer que fosse.

Fica assim o balanço para a semana que vem e apenas não resisto, desde já, a dois desabafos: um, para dizer que não há explicação alguma que nos possa fazer crer na competência de um treinador que prefere jogar com Miguel Veloso do que com William Carvalho — e esse é apenas um dos inúmeros erros de casting cometidos; e o outro desabafo é para dizer que nada nos levaria a poder adivinhar uma Selecção tão mal preparada, em todos e cada um dos aspectos, para disputar um Mundial. Quando isto acabar, devem-nos uma longa explicação. Mas por ora, como disseram o William e o Varela, aliás com grande originalidade, o momento é o de «há que levantar a cabeça» — que parece ser o único pensamento profundo que lhes é contratualmente permitido exprimir, após um desaire.

 E eu devo uma retratação, quando aqui previ que iríamos assistir a um mau Mundial, com jogadores cansados e em baixo de forma, jogando a passo e com estratégias super-cautelosas. A minha única desculpa é que essa previsão foi feita depois de adormecer a assistir ao Portugal-Grécia, jogo de preparação, no Jamor. Fui estúpido: tomei aquelas duas equipas por representativas do todo, sem saber que estava perante aquelas que talvez sejam, até agora, as duas piores entre as 32 selecções que disputam este Mundial.

Porque a verdade é que temos assistido a um grande campeonato, com grandes jogos e algumas selecções que, ao contrário da nossa, mostraram ter feito progressos imensos desde a África do Sul. Mais do que isso, temos visto equipas que correm, jogam e lutam até ao fim, marcam golos, protagonizam reviravoltas, estão ali com um sentido de responsabilidade do espectáculo que os brasileiros merecem. O Mundial tem sido salvo pelos jogadores, por aqueles que, como escreveu Santiago Segurola no DN, a propósito do Alemanha-Gana, protagonizam jogos «que dá gosto aos adeptos e desagradam aos treinadores». Ver equipas como o México, a Costa Rica, o Japão, a Coreia do Sul, até o Irão de Carlos Queiroz, a jogarem um futebol aberto e inteligente, que não se julgaria ao alcance delas, é de facto, uma extraordinária novidade. Em oposição, equipas como Portugal, a Grécia (esta um autêntico caso de lesa-futebol), ou o triste Brasil de Scolari (escrevo antes do jogo com os Camarões), arrastam em campo um vedetismo sem sentido nem brilho, que é um misto de preguiça e incompetência.

 0 FC Porto é das equipas, a segunda ou terceira, que tem mais jogadores presentes no Mundial. Mas deve ser certamente a primeira em número de jogadores que já foram seus: só na nossa Selecção são sete. Mas, de todos os ex-portistas, o que mais me dói ver em acção é Atsu, esse jogador que Vítor Pereira desprezou e empurrou porta fora e que eu tanto defendi aqui. Também me custa ver o costa-riquenho Bryan Ruiz, um fabuloso número 10, sobre o qual chamei a atenção há uns três anos, quando o seu passe era completamente acessível. E o mesmo direi do argelino Brahimi, de que falei há meses atrás e que hoje já deve custar o dobro. O Mundial está, fatalmente, a revelar vários jogadores que um bom scouting teria detectado antes e que agora é tarde para lhes chegar. Já que se insiste em comprar sempre lá fora, há países que são autênticos viveiros de grandes futebolistas em potência, mas não sei se é por serem baratos e não garantirem grande dinheiro das comissões, ou se é porque o trabalho de prospecção não é feito como devia, escapam aos nossos grandes clubes compradores.